Por marta.valim

Na contramão do que projeta o Banco Central, as cinco instituições financeiras que mais acertam previsões de médio prazo apuradas pela pesquisa Focus, do Banco Central, preveem para 2015 uma inflação mais elevada que a deste ano. Impactos mais fortes do aumento dos preços administrados e da taxa de câmbio são os dois principais fatores que levam os economistas destas empresas a trabalharem com um cenário inflacionário pior. Para o grupo, chamado de “Top-5” de médio prazo na pesquisa (que reúne as expectativas do mercado para diversos indicadores econômicos), na média, a inflação ficará em 6,32 % em 2014, e 6,47% em 2015.

Especialistas que acompanham de perto as projeções apontam que em geral, o grupo do médio prazo é mais certeiro nas apostas para um ano à frente que o agregado do mercado. Talvez por isso, o que se viu no Boletim Focus divulgado ontem pelo BC foi uma aproximação da média em direção à elite: agora, o mercado de maneira geral trabalha com estabilidade e não queda para o IPCA: ele ficaria em 6,26% (ante 6,39% há uma semana) em 2014 e em 6,25% em 2015. Na gangorra das previsões, caiu a estimativa para este ano, mas a de 2015 moveu-se apenas marginalmente, de 6,24% para 6,25%.

Já o Banco Central trabalha com uma previsão de desaceleração: IPCA de 6,4% neste ano e de 5,7% no próximo, de acordo com o Boletim de Inflação, divulgado em junho. Na última semana, o diretor de Política Econômica do Banco Central, Carlos Hamilton de Araújo, reafirmou a expectativa do BC na na trajetória de queda do IPCA, mesmo em um cenário em que o real sofra uma desvalorização maior frente ao dólar nos próximos meses.“Em um dos cenários que trabalhamos, está contemplada alguma depreciação cambial e ainda assim teríamos recuo na projeção de inflação ao longo do tempo”, afirmou ele em entrevista na quinta-feira 7.

Stephan Kautz, economista-chefe da Neo Gestão de Recursos, que ocupa a primeira colocação na lista dos cinco melhores, informa que trabalha com um IPCA de 6,15% para este ano e uma leve piora para 2015: 6,30%. “Há uma pressão de alta dos preços regulados, em especial da energia elétrica, que nos faz avaliar que a inflação continuará alta no próximo ano”, diz ele. “Muda a composição do índice, mas não muda o seu patamar”, diz ele. A Neo trabalha com uma desvalorização do real frente ao dólar de 10% ao longo de 2015, pelo menos. No caso dos preços sujeitos correções pré-estabelecidas em contrato ou controlados pelo governo, como luz, combustível e tarifas de transporte, a Neo Investimentos projeta 7,2%.

Cristiano Oliveira, economista do Banco Fibra, que ocupa o quarto lugar na lista dos cinco melhores, também vê nos preços administrados uma ameaça, ainda que a recomposição de tarifas, represadas pelo governo para conter a inflação, seja realizada ao longo de dois anos. No caso, a elevação projetada é de 8,5%. “A queda dos preços livres, em nossa avaliação, não será suficiente para compensar o peso das correções dos preços administrados e a desvalorização do câmbio”, diz. “No médio prazo,vemos um comportamento bem menos benigno para o IPCA, principalmente por conta da aceleração dos preços administrados. Estimamos que se as principais defasagens dos preços administrados fossem zeradas hoje, o IPCA seria 1,2 ponto percentual mais alto. A convergência do IPCA para o centro da meta é um desafio à frente”, afirma Oliveira.

Para ele, o preço da energia elétrica não será o único a pesar. “Prevemos correções importantes (de 10% em 2015) nas tarifas de transporte urbanos nas principais capitais brasileira, entre elas São Paulo, que há dois anos não faz correções”, explica, lembrando que a capital paulista tem um peso importante no IPCA. Oliveira prevê para este ano IPCA de 6,3% e de 6,5% para 2015.

Ao contrário dos top Five anteriores, Felipe Carvalho, sócio e economista responsável pelas projeções da Absolute Investimentos, na segunda colocação no grupo, trabalha com uma trajetória alinhada à do BC: 6,4% para este ano e 6% para 2015.

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