Por monica.lima

Os órgãos financeiros recém-criados pelos países que compõem o Brics terão uma relação simultânea de cooperação e competição com as instituições criadas pelos acordos de Bretton Woods. Esta foi a avaliação do economista Paulo Nogueira Batista Jr., diretor executivo para o Brasil do Fundo Monetário Internacional (FMI), durante o 2º Congresso Internacional Celso Furtado, promovido pelo Centro Internacional Celso Furtado, com apoio do Brasil Econômico.

Nogueira Batista Jr. reiterou o discurso da presidenta Dilma Rousseff, após a formalização da criação das instituições, de que não há o interesse em se abrir mão do Fundo Monetário. Entretanto, lembrou que a motivação para a idealização desses organismos está na ineficiência do próprio FMI e do Banco Mundial.

“Será uma relação de ambivalência. Por um lado, essas novas instituições foram criadas para cooperar e até atuar em conjunto com o Fundo Momentário e o Banco Mundial, se conveniente e necessário. E será.

Por outro lado, é evidente que há também uma relação de competição, um tensionamento. Se essas instituições estivessem funcionando a mil maravilhas, não precisaríamos nos dar ao trabalho de criar esses novos mecanismos”, explicou.

O economista revelou ainda que , dentro do FMI, não se acreditava que os acordos para a criação de um banco de desenvolvimento e um fundo contingente de reservas seriam concretizados.

“Acho que houve certa surpresa quando saiu o resultado da reunião de Fortaleza. Viam como um fato político e achavam que não ia para frente. Isso é uma percepção minha. Eu estava em Fortaleza quando assinaram a criação do banco e do fundo e, no mesmo dia, recebi um convite da Lagarde (Christine Lagarde, diretora geral do FMI) para uma reunião com os cinco diretores dos Brics, a fim de entender melhor o que tinha sido assinado”, afirmou o diretor.

Nogueira Batista Jr. afirmou que a criação desses organismos é um mecanismo para modificar o que considera como um “multilateralismo falho”. Em sua visão, as instituições que existem hoje não acompanharam a reconfiguração pela qual o mundo passou nas últimas décadas. Ele reforçou, também, o compromisso dos Brics com os instrumentos multilaterais.

“As instituições multilaterais foram criadas em uma realidade que correspondia ao equilíbrio de poder do final da segunda metade do século XX. Houve uma mudança tão grande na minha geração, que essas instituições ficaram defasadas. Todos os Brics são comprometidos com as instituições multilaterais. Mas notamos que todas essas instituições, particularmente o Banco Mundial e o FMI, estão presas ao passado. A mudança está ocorrendo, em parte até pela pressão dos países em desenvolvimento, notadamente dos Brics”, avaliou.

Apesar de a iniciativa ter sido conduzida pelos países do bloco, poderá beneficiar, também, outras nações em desenvolvimento. Segundo o diretor executivo do Brasil no FMI, o enfoque do banco será o financiamento de projetos de infraestrutura sustentáveis. Ele destacou, também, o grande interesse apresentado por outros países, em participar do banco, mesmo antes da assinatura do tratado.

“Haverá duas modalidades de participação para um país em desenvolvimento não Bric. Ele pode ser um sócio tomador de empréstimos, que participa do capital, ou tomar empréstimos sem ser sócio. Mesmo os países avançados podem ser sócios do banco, mas não tomadores. Essa decisão de abrir espaço para os desenvolvidos gerou controvérsias. Estabeleceu-se uma precaução: os Brics, em nenhum caso, terão menos de 55% do poder de voto. Os avançados poderão ter, no máximo, 20% do poder de voto”, detalhou.

Questionado sobre a influência que as eleições presidenciais do mês de outubro podem ter na condução do processo de fortalecimento dos Brics, Nogueira afirmou que o cenário ainda representa uma incógnita. Entretanto, disse acreditar que trata-se de um caminho irreversível, que independe da sucessão presidencial.

“Sou otimista, porque o que está acontecendo não é um resultado de pessoas. É um processo histórico, estrutural, de mudança do peso relativo das economias. O multilateralismo é institucional, mas tem uma correspondência no mundo multipolar. Não tem jeito, vai acontecer, qualquer que seja o governo”, opinou.

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