Ações simples podem ajudar a combater o desperdício de água

Troca de aparelhos convencionais por economizadores e adoção de tratamento próprio de água e esgoto ajudam no uso racional e na economia financeira em São Paulo

Por O Dia

Após mais um mês com pouca chuva, o nível do Sistema Cantareira alcançou ontem 10,1% de sua capacidade, já contabilizada a reserva técnica. Enquanto o período de seca não acaba, mais pessoas e empresas buscam soluções para não ficarem reféns da chuva. É o caso do Museu de Arte de São Paulo (Masp). No ano passado, a fabricante de torneiras Deca iniciou um projeto para tornar o uso de água do museu mais racional e econômico, e conseguiu diminuir em mais de 40% o consumo local.

Responsável pela obra do Masp, Osvaldo Barbosa de Oliveira Júnior, coordenador da engenharia de aplicação da Deca, explica que um diagnóstico identificou os pontos de perda de água do edifício e, a partir disso, as medidas que deveriam ser adotadas — como medidores setorizados para localizar os pontos de maior consumo e, agora, a instalação de produtos economizadores no lugar dos convencionais. Como exemplo, ele cita a troca de caixas acopladas nas bacias dos banheiros de 12 litros para seis litros, além de válvulas economizadoras nas torneiras.

“Só com essas medidas, o Masp economizou mais de 40% no consumo de água. Antes das adequações, o museu consumia entre 1,7 mil e 2 mil m³ de água por mês (o equivalente a 2 milhões de litros). Em junho, primeiro mês da mudança, o consumo foi reduzido para 1,1 mil m³ e em julho e agosto, 1 mil m³”, diz.

A opção por uma estação de tratamento de água fez a JR Diesel economizar 75% da água utilizada mensalmente. O diretor de Marketing e Desenvolvimento da empresa, Arthur Rufino, explica que a oficina de recuperação de peças descartava a água que utilizava para lavar as unidades, pois era contaminada com óleo e resíduos.

“A partir da instalação da estação de tratamento, a água da lavagem das peças é tratada e pode ser reutilizada na lavagem de outras.Cerca de 85% a 90% do total tratado voltam para os reservatórios e pode ser reutilizados. Os 15% restantes vão embora com o resíduo, que é retirado por uma empresa especializada que faz o descarte adequado”, diz Rufino. Ele explica que o custo de instalação desse processo é de R$ 80 mil, mas será diluído ao longo de um ano com a economia que a empresa conseguirá fazer mensalmente.

Voltada ao uso consciente, a empresa também tem um sistema de captação de água de chuva que é utilizada nos banheiros. “Antes de instalarmos a estação de tratamento, as medidas que adotamos eram simplesmente econômicas. Mas no meio do caminho a solução foi perfeita, pois ocorreu justamente quando começaram os problemas com redução de água em São Paulo”. O consumo de água da oficina passou de 380 m³ por mês, para 115 m³ desde que adotou a estação de tratamento.

Sustentável e autossuficiente

O uso inteligente da água também faz parte das preocupações do Santana Parque Shopping, localizado na Zona Norte de São Paulo. Que, neste caso, já nasceu sustentável: inaugurado em 2007, o centro comercial tem uma estação de tratamento de esgoto (ETE) que recicla a água dos banheiros e manda para o sistema hídrico para ser reutilizada nos próprios banheiros, na irrigação, na limpeza e no sistema de ar condicionado.
Segundo o gerente de Operações do shopping, Ricardo Omar, o principal motivo para a adoção do sistema foi econômico: “Ter uma estação própria de tratamento é muito mais barato do que utilizar água da Sabesp: custa 1/3 do valor que gastaríamos por mês com água tratada pela empresa”.

Omar explica que 40% da água usada no shopping vêm da ETE e os outros 60%, de dois poços artesianos. “Somos autossuficientes nessa questão”, salienta.
Mas não são apenas empreendimentos comerciais que aderiram à onda do uso inteligente. Em Perdizes, bairro da Zona Oeste de São Paulo, um condomínio com duas torres de apartamentos individualizou os medidores de água e conseguiu fazer a conta mensal cair de R$ 19 mil para R$ 11 mil.

“As pessoas usam o recurso de forma mais racional quando pagam pelo que consomem. Ou seja, enquanto a conta é rateada igualitariamente, a maioria não se preocupa”, diz o gerente comercial da CAS Tecnologia, Marco Aurélio Teixeira, empresa que utiliza a telemetria como forma de recuperar perdas de água.

Teixeira explica que, no lugar de uma conta geral, na qual o valor total é dividido pelo número de apartamentos, o uso de medidores individuais permite que os condôminos saibam exatamente o volume consumido e paguem apenas por isso. “Além de tornar o pagamento mais justo, como passam a arcar com os custos do seu consumo, é visível a mudança de hábito por parte dos moradores, que passam a se preocupar com a economia”, diz Teixeira.

Segundo o síndico do condomínio, Eduardo Borklian, a negociação para a mudança foi muito tranquila e teve 100% de adesão. “Há moradores solteiros que pagavam o mesmo que um casal com filhos. Agora, o desembolso é mais adequado à situação de todos”, diz.

O gerente da CAS Tecnologia explica que os empreendimentos novos já são construídos com a opção de individualização da medição. Mas, em prédios antigos, é possível fazer um raio x das instalações hídricas através de uma mediação setorizada que identifica quais problemas estão impedindo a redução no consumo, especialmente nas colunas. Nesse caso, diz Teixeira, a economia chega a 20% da água consumida.

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