Petróleo cede com excesso de oferta

Cotação do Brent foi negociada abaixo dos US$ 100 pela primeira vez em 16 meses. Para especialistas, cenário favorece país no curto prazo, com redução do custo de importação

Por O Dia

A exemplo do minério de ferro, o preço do petróleo começa a sucumbir ao excesso de oferta global e desceu ontem, pela primeira vez desde janeiro de 2013, abaixo da barreira dos US$ 100 por barril em Londres. A tendência, segundo analistas, é que as cotações permaneçam em baixa pelos próximos meses, respondendo aos fracos números da economia mundial. Ao contrário do minério de ferro, porém, a queda do preço do petróleo é favorável ao país no curto prazo, pelo potencial de aliviar a balança comercial e as contas debilitadas da Petrobras.

Referência mundial de preços, o petróleo Brent fechou o pregão de ontem em Londres cotado a US$ 100,20, queda de 0,61%. No decorrer do dia, chegou a ser negociado a US$ 99,36, menor valor dos últimos 16 meses. “O mundo está vivendo hoje um momento de abundância de petróleo e gás e a prova disso é que, apesar dos conflitos no Oriente Médio, o preço está caindo ao invés de subir”, analisa Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE). As cotações internacionais costuma cair nesta época, com o fim das férias de verão no Hemisfério Norte, mas o valor do fechamento de ontem é 11,9% inferior ao vigente um ano antes.

Segundo analistas, as perdas de ontem foram provocadas pela decepção com as expectativas sobre a economia chinesa. “A demanda global não tem tido reação e os Estados Unidos e Canadá, grandes consumidores, estão aumentando a produção”, acrescenta Pires. A curva de queda no preço teve início em meados de junho, quando a cotação do Brent atingiu seu valor máximo do ano, de US$ 115,06 por barril. Já o petróleo negociado em Nova York caiu 0,67% ontem, para US$ 92,66 por barril — a cotação registra queda há seis semanas consecutivas.
Em relatórios divulgados recentemente, a Agência Internacional de Energia (AIE), o Banco Mundial e a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) cortaram suas projeções de aumento da demanda global em 2014, corroborando a expectativa de que os preços permanecerão em patamares inferiores. Para a AIE, as projeções de longo prazo apontam para preços menores com o aumento da produção de jazidas não convencionais, ganhos de eficiência e substituição por outras fontes.

Em um primeiro momento, dizem especialistas, o cenário é positivo para o Brasil, pois os altos preços têm forte impacto na balança comercial e nas contas da Petrobras. “Como a balança é deficitária, a queda no preço representa redução do déficit”, diz José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). Até agosto, com as importações de derivados pela Petrobrás, o petróleo tem um peso negativo de US$ 10,8 bilhões nas contas externas brasileiras. “Como venho dizendo, a balança deste ano terá superávit não pelo aumento das exportações, mas pela queda das importações”, ressalta.
A Petrobras, por sua vez, vem tendo prejuízos recorrentes com a importação de derivados por preços maiores do que os praticados no país. “Quando o petróleo cai, os derivados também caem, o que pode ser positivo para a Petrobras neste momento”, comenta Pires. No longo prazo, porém, a manutenção dos preços em níveis mais baixos pode prejudicar investimentos no pré-sal, além de reduzir as receitas com royalties e a arrecadação do Fundo Social. “Se o Oriente Médio estivesse em paz, o petróleo poderia estar na casa dos US$ 80 por barril, preço que pode prejudicar alguns dos projetos do pré-sal”, avalia o consultor.

Em seu plano estratégico, a Petrobras trabalha com o petróleo a US$ 100 por barril no horizonte 2015-2017, valor que lhe garantiria os recursos necessários para financiar os investimentos, mantendo os indicadores de endividamento dentro de níveis aceitáveis por agências de classificação de risco. Em um prazo mais longo, a empresa projeta uma redução para a casa dos US$ 95 por barril.

Minério em baixa reduz exportações brasileiras

Principal item da balança comercial brasileira, o minério de ferro vem sofrendo há mais tempo com o excesso de oferta global. Na semana passada, o produto era negociado na China, maior comprador mundial, a US$ 86 por tonelada. Na divulgação da balança comercial de agosto, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (Mdic) indica que o preço médio de venda do minério brasileiro, no mês passado, foi de US$ 67,5 por tonelada, valor 20,3% menor do que o praticado no mesmo período do ano passado. A média diária de exportações, de US$ 90,9 milhões, caiu 24,3%. “A tendência é que esse cenário se mantenha até o fim do ano. Mas pode ser que tenhamos ganhos de volume exportado”, prevê Castro.
A crise das commodities afeta também as cotações internacionais de outros produtos da pauta de exportações brasileiras, como o milho, cujo preço de venda, pelo Brasil, caiu 16,7% em agosto, na comparação com o mesmo período de 2013. A produção global do grão disparou na última safra, atingindo 984,4 milhões de toneladas, segundo dados do Banco Mundial. O valor é 13,3% superior ao registrado na safra anterior. O banco acredita que os preços das commodities agrícolas devem cair 1,4%, em média, em 2014. “O maior declínio entre as commodities alimentícias se darão no grupo de grãos com milho e arroz (mercados bem supridos), com queda de 18% cada.”

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