Por marta.valim

Parceira da Petrobras na área de Libra, no pré-sal, a petroleira anglo-holandesa Shell vendeu à tailandesa PTTEP uma fatia de 20% na província petrolífera denominada Parque dos Doces, na Bacia do Espírito Santo. A operação, de valor não divulgado, é parte de plano de desinvestimento iniciado pela companhia no início do ano, com o objetivo de enfrentar o crescimento de custos do setor de petróleo e focar em projetos mais rentáveis. Outra sócia de Libra, a francesa Total, anunciou anteontem um programa adicional de vendas de ativos, no valor de US$ 10 bilhões, com a mesma finalidade.

No Parque dos Doces, que fica próximo à área produtora de Golfinho, no litoral capixaba, a Shell era parceira da Petrobras e da Inpex. A província já tem descobertas, chamadas provisoriamente de Quindim e Pé de Moleque, em avaliação pela estatal, que opera a concessão. Uma primeira plataforma de produção já foi encomendada à francesa Modec. A operação representa a segunda aquisição da PTTEP no Brasil — no ano passado, a companhia tailandesa comprou 25% de participação em concessões na Bacia do Barreirinhas, no Maranhão.

Em janeiro, a Shell já havia anunciado a venda de uma fatia de 23% em área na Bacia de Campos, chamada de Parque das Conchas, para a Qatar Petroleum International, por US$ 1 bilhão. A companhia iniciou, na virada do ano, um grande plano global de desinvestimentos, após um recorde de gastos de US$ 46 bilhões no ano anterior, provocados pelo aumento de custos de serviços petrolíferos. A empresa tem 20% do campo de Libra, maior descoberta brasileira de petróleo, que vai demandar US$ 80 bilhões em investimentos, segundo estimativas de outra parceira, a Total.

O projeto brasileiro foi uma das motivações para que a companhia francesa anunciasse, na segunda-feira, uma complementação de seu plano de vendas de ativos, que somou entre US$ 10 bilhões US$ 15 bilhões nos últimos dois anos. Agora, a meta é arrecadar outros US$ 10 bilhões até 2017. Ontem, a empresa anunciou a transferência, para consórcio liderado pela distribuidora de gás E1 Corporation, de sua fatia de 25% em uma companhia de transporte de gás natural no estado de Ohio, nos Estados Unidos. Em comunicado, a empresa informou que a operação vai lhe render US$ 400 milhões.

“A venda deste ativo não estratégico reflete o gerenciamento de nosso portfólio”, afirmou, no texto, o Olivier de Langavant, vice-presidente de estratégia e desenvolvimento de negócios da companhia. Com o aumento de custos e a perspectiva de queda no preço internacional do petróleo, o setor petrolífero enfrenta uma onda global de reestruturação de ativos, comenta o consultor Pedro Zalan, da ZAG Consultoria. “No mundo todo, todas as companhias estão cortando custos”, diz.

Especialistas, no entanto, não creem em dificuldades para investir em Libra, projeto prioritário para o governo brasileiro, que tem potencial para levar o Brasil à condição de grande exportador de petróleo na próxima década. O projeto é apresentado na lista de prioridades das duas companhias, que detém 40% do consórcio — a Petrobras tem 40% e as chinesas CNOOC e CNPC dividem os 20% restantes. “É normal que, periodicamente, as empresas repensem seus portfólios de acordo com as oportunidades que venham surgindo”, diz Edmar Almeida, do Grupo de Economia da Energia da UFRJ. “Após a vitória no leilão de Libra, esse movimento era esperado”, completa.

A área de Libra foi adquirida pelas empresas no final de 2013, com um bônus de assinatura de R$ 15 bilhões e o compromisso de entregar 41,65% da produção de petróleo (excluindo os volumes necessários para o pagamento dos custos de operação) para a União. Operadora do consórcio, a Petrobras finaliza a contratação da primeira plataforma de produção no projeto, que deve ser encomendada com a Odebrecht, com início de produção previsto para o fim de 2016. A unidade, que fará um teste de longa duração no reservatório, terá capacidade para extrair 50 mil barris de petróleo por dia.

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