‘Governo acordou tarde para a infraestrutura’

Para o presidente do Conselho Diretor da Associação Brasileira de Consultores de Engenharia (ABCE), Mauro Viegas Filho, falta confiança e equilíbrio de atratividade nos leilões

Por O Dia

Apesar do otimismo quanto aos investimentos, o presidente do Conselho Diretor da Associação Brasileira de Consultores de Engenharia (ABCE), Mauro Viegas Filho, presidente da Concremat, não esconde a frustração com as ações do governo, que, segundo ele, “acordou tarde” para os leilões de infraestrutura. Viegas diz que ainda “falta confiança e equilíbrio de atratividade” nos leilões. Esse é um dos temas que serão discutidos por Viegas e outros especialistas na 101ª Conferência Internacional de Infraestrutura da Fidic, que acontece semana que vem no Rio.

Em 2013, a infraestrutura entrou na agenda do governo com o anúncio de 18 leilões nas áreas de transporte, energia e petróleo e gás. Quais são as perspectivas para a manutenção dos investimentos e para o setor de Construção Pesada, visto que, fatalmente, o governo contará com um orçamento menos folgado para apoiar projetos?

Vejo 2015 com muita apreensão. É um ano de mudanças de governo, em que há sempre um freio de arrumação, qualquer que seja o vencedor. Logo, deveremos ter um impacto nos primeiros seis meses, com certeza. Mas acredito que os programas de infraestrutura serão os primeiros a reagir e devem começar a deslanchar ainda no mesmo ano. Hoje temos um cenário em que o Brasil é visto como um país aberto a concessões privadas e acho que essa é a tendência que será seguida, independentemente do candidato que vença.

Quais investimentos devem ser priorizados nos próximos anos?

Os desafios continuam se voltando para as ferrovias e a energia, que contará com um novo leilão já em janeiro. Temos também os aeroportos regionais. Há muita coisa ainda a ser feita.

Em que medida temos avançado no programa de infraestrutura?

O governo Dilma acordou depois de um tempo titubeando se iria colocar ou não os leilões de concessão na rua, principalmente sob a forma de PPPs (Parcerias Público-Privada) e concessões. Mas, do que foi anunciado para o que está sendo realizado, há ainda um gap muito grande — inclusive, dentro do próprio programa que estava previsto para este governo.

Quais demandas são as mais urgentes?

A demanda por infraestrutura em função do desenvolvimento dos corredores agrícolas da Região Centro-Oeste é enorme. Mas, hoje, há um gap em todos os setores: energia, transportes — setor aeroportuário, portos e aeroportos —, saneamento, petróleo e gás. Nos próximos 15 anos teremos um potencial de investimentos em infraestrutura acima de R$ 1 trilhão. É uma demanda grande, que gera potencial de negócios e parcerias público-privadas e em concessões, além dos investimentos do próprio setor público, na mesma proporção. É um investimento colossal que o Brasil precisa e tem viabilidade econômica para fazer, mas é preciso criar condições adequadas.

Quais são os desafios para que o investimento deslanche?

O principal desafio é o de capacidade de gestão e de engenharia. Não adianta anunciar planos maravilhosos e não ter boa engenharia. Os projetos demoram às vezes 10 anos para serem implementados pela dificuldade de se ter planejamento de projetos bem feitos.

Mas esse é um problema exclusivo das empresas ou do governo também?

Em qualquer empreendimento de concessão e PPPs é preciso, além da visibilidade, conversar com o mercado. O que significa fazer um processo de manifestações de interesse bem amplo, avaliar se vai ter aderência no mercado, se o mercado está achando que há equilíbrio na proposta. Acontece que alguns processos de leilões atrasaram porque as primeiras versões saíram com valores inviáveis e outros com um processo de regulamentação falho. Garantias que não são consistentes para o mercado privado. Tudo isso são pontos de gargalos que acabam atrasando esses processos por anos.

Por isso a baixa atração de investidores para as ferrovias?

Falta confiança e equilíbrio de atratividade. Se não houver atratividade, não vai achar ninguém. Como o dinheiro do Orçamento Público também vem sendo pequeno e a capacidade de gestão está muito debilitada, as coisas não acontecem no país.

É por isso que os investidores vêm pisando no freio?

As razões são por conta de garantias e desequilíbrios de retornos de capital. Esses são investimentos de longo prazo que não são influenciados por um ou dois governos. O problema maior é o de dar capacidade de atração do investimento pelas formas de regulamentação e pelas condições de edital. Esse é um ponto mais sério, que tem acontecido no caso das ferrovias. Até hoje elas não deslancharam por conta do modelo, que ainda gera dúvidas nos players do mercado. 

Onde é preciso mudar?

O mais saudável seria que o governo chamasse os empresários para conversar, para irem às audiências públicas, e, só a partir daí, definir condições mais atraentes para ambas as partes. Porque, se não for equilibrada, não terá players para a oferta.

Como o sr. vê a atuação do BNDES no apoio aos projetos de infraestrutura no país?

É uma parceria fundamental e que até pode ser expandida. Mas acredito que hoje o BNDES tem atendido bem às necessidades dos players que estão interessados em investir.

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