Vendas de combustíveis começam a sentir a crise

A desaceleração das vendas é boa notícia para a Petrobras, em um momento em que a desvalorização cambial amplia a defasagem dos preços em relação às cotações internacionais

Por O Dia

Um dos setores que vinham apresentando maior resistência à retração econômica, a distribuição de combustíveis começa a dar sinais de desaceleração este ano. A queda no ritmo é puxada, principalmente, pelo mercado de óleo diesel, diretamente ligado ao desempenho do transporte de cargas do país. Depois de apresentar um crescimento de 4,2% no primeiro trimestre, as vendas de diesel estagnaram em julho e agosto. Se, por um lado, o cenário é prejudicial aos ganhos das empresas do setor, por outro pode ser positivo para a Petrobras e para a balança comercial, que vêm sofrendo com o aumento recorrente das importações.

De acordo com dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o mercado brasileiro consumiu 591,5 milhões de barris de combustíveis em 2014. O volume é 4,8% superior ao registrado no mesmo período do ano passado, impulsionado principalmente pelo mercado de gasolina. Os dados, porém, mostram desaceleração ao longo do ano: no primeiro trimestre, a alta era de 6,2%; entre julho e agosto, caiu para 4% (a estatística de setembro ainda não foi divulgada pela agência). No caso do diesel, a taxa de crescimento cai, no mesmo período, de 4,2% para zero.

“O mercado de diesel é muito associado ao nível de atividade econômica, principalmente ao transporte de carga e ao consumo do setor agrícola. Como a agricultura não está reduzindo a atividade, a desaceleração do consumo deve estar associada ao transporte de carga, que reflete a atividade industrial”, diz o professor Edmar Almeida, do Grupo de Economia da Energia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Já a gasolina está menos associada ao ciclo econômico e mais ao tamanho da frota de veículos que, embora as vendas tenham caído, continua aumentando”, completa.

O consumo de gasolina, de fato, continua sustentando o crescimento do mercado de combustíveis no país. Mas também em ritmo inferior ao registrado no início do ano: no primeiro trimestre, as vendas cresceram 9,2%. Já entre agosto e setembro, a alta é de 4%. O consumo de querosene de aviação apresenta trajetória semelhante: a taxa de crescimento caiu de 4,7% no primeiro trimestre para 3% entre julho e agosto. Segundo executivos do setor, a percepção de retração no mercado de combustíveis se acentuou a partir do início da Copa do Mundo, em junho.

A desaceleração das vendas é boa notícia para a Petrobras em um momento em que a desvalorização cambial amplia a defasagem dos preços dos combustíveis com relação às cotações internacionais. Mesmo com o petróleo em baixa, a SLW Corretora calcula que a diferença entre os preços externos e internos subiu para 15% no caso da gasolina e 10% no diesel. Em agosto, a defasagem atingiu o menor patamar do ano: 11% e 4%, respectivamente, de acordo com cálculos da GO Associados.
“Tudo o que a Petrobras não quer é ampliar as importações neste momento”, comenta Almeida.

A área de abastecimento da empresa tem apresentando recorrentes prejuízos por conta da venda de combustíveis no mercado interno a preços inferiores aos pagos na compra dos produtos no exterior. No primeiro semestre, as perdas foram de R$ 8,6 bilhões.
A empresa espera iniciar, até o final do ano, as operações da primeira fase da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, que deve reduzir a dependência brasileira de óleo diesel importado.

Entre janeiro e setembro, a balança comercial de petróleo e derivados registrou déficit de US$ 12,8 bilhões, de acordo com dados da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio.

O valor é menor dos que os US$ 16,5 bilhões registrados no mesmo período do ano anterior, refletindo um aumento nos embarques de petróleo bruto, mas continuam dando contribuição relevante para o mau desempenho do comércio exterior . As importações do segmento são responsáveis por cerca de 10% das compras brasileiras no mercado internacional. <MC>Com Reuters

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