Por bruno.dutra

Rio - A seca que atinge o Centro-Sul e o Centro-Oeste do país, afetando as principais regiões produtoras de gado bovino, como São Paulo, Triângulo Mineiro, Goiás e Mato Grosso do Sul, tem reduzido a oferta de carne e elevado os preços na mesa do brasileiro. O índice de Preços ao Consumidor (IPC), medido pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/Ibre), registrou em setembro alta de 0,49%, frente aos 0,12% do mês anterior. No item carne bovina, a expansão foi de 0,34% para 2,72%. Nos últimos 12 meses, a inflação do item, no entanto, avançou 18,27%.

A demora na recomposição do pasto, em função da estiagem que começou ainda em outubro de 2013 e se manteve até este mês, com uma pequena trégua nos meses de março e abril, tem dificultado a situação para o produtor. É o que aponta o professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq/USP) e pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), Sergio De Zen.

O Indicador de Preços do Boi Gordo do Cepea revela uma forte valorização da carne bovina, que saiu da faixa de R$ 119,71 a R$ 122,50 a arroba em agosto, para R$ 130,16 a R$ 133,22 em outubro. Economista da RC Consultores, Marcel Caparoz destaca que o ritmo de abate do gado bovino tem caído desde o início do ano, pressionando os preços. Segundo ele, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ( IBGE) referentes ao segundo trimestre do ano revelam que o ritmo do abate está crescendo a uma taxa de 5,25%. Em igual período de 2013, os abates cresciam a 11,42%.

“A chuva mais fraca ao longo dos últimos meses dificultou a engorda do gado e diminuiu a oferta de boi. Ainda há um crescimento na produção, mas o ritmo do abate é menor, o que revela que há menos animais prontos para o abate e, por consequência, menos carne para venda no mercado”, avalia o consultor.

Mas os bons preços do mercado internacional também podem ter feito o produtor priorizar a exportação, reduzindo a oferta no mercado doméstico. De janeiro a setembro, o boi in natura teve valorização de 12%, saindo de US$ 4,36 o quilo para US$ 4,88.

“A carne bovina encontrou um canal internacional, o que permitiu que se deslocassem as vendas. É preciso considerar, sim, que se o frigorífero tem a possibilidade de vender ao exterior por um preço mais alto, ele prioriza essa venda”, avalia Salomão Quadros, superintendente adjunto de Inflação da FGV/Ibre.

Segundo a FGV, nos últimos 12 meses a inflação dos bovinos para os pecuaristas ficou em 23,98%. Nos frigoríferos, a alta foi de 23,33% e no varejo está em 18,27%. Para Salomão Quadros, a expansão dos preços da carne deve ser captada também pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de setembro, o indicador oficial da inflação medido pelo IBGE e que será divulgado hoje.

Mas, para Quadros, a tendência é a de que o preço do item não mantenha uma trajetória de alta nos meses de outubro e novembro. “O IPA (Índice de Preços por Atacado) mostrou que já tivemos um momento mais forte da elevação da carne e ele está cedendo”, aponta o economista.

Enquanto em agosto o IPA da carne bovina tinha marcado expansão de 5,24%, em setembro houve uma queda, indo para 3,20%. “O que dá a entender que a parte mais intensa do aumento já aconteceu. Os frigoríferos fizeram reajuste forte em agosto e alguns continuam reajustando, mas não com a mesma amplitude. Um sinal de que no varejo haverá um aumento, talvez agora, mas que não deve se repetir”, diz Quadros.

A competição entre os diversos tipos de carne, com destaque para o frango, deve impor, também, uma restrição ao aumento da carne bovina. Embora tenha tido uma leve alta no mês (de 3,24%) , a inflação das aves nos últimos 12 meses (em 2,25%) está abaixo da da carne, com expansão de 18,27%. A queda nos preços internacionais do trigo e da soja, base para a produção de ração, deve contribuir para a manutenção dos baixos valores do produto.

“A reação inicial é de um aumento de preços, em função da elevação da demanda. Mas a tendência é a de que a queda no preço do milho se reverta em custos menores para a produção”, observa Marcelo Caparoz.

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