Dólar em valorização tem grande impacto sobre os importadores

Valorização da moeda americana ante o real torna o produto nacional competitivo, mas, por outro lado, encarece a produção

Por O Dia

São Paulo - A intensidade da valorização do dólar, que passou de R$ 2,21 para R$ 2,50 em apenas quatro meses, pegou de surpresa empresas de diversos setores e mostra os dois lados de uma mesma moeda: comemoração para quem exporta; e dias nebulosos para importadores.

Professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP), Celso Grisi explica que o real desvalorizado afeta bastante as empresas que dependem da importação de insumos. Ele cita como exemplo os setores eletro-eletrônico, químico, de aviação e até automobilístico. “Embora essas empresas se tornem mais competitivas para exportar, no curto prazo veem o custo de produção aumentar por conta da importação de peças e de componentes que se tornam mais caros, já que o dólar valorizado demanda mais reais para um produto que será montado aqui e vendido pelo mesmo valor de quando a situação era inversa”, explica

Nesse cenário, diz Grisi, o caminho é substituir as peças por similares nacionais. Se não houver produção local, a saída é diminuir a margem de lucro ou repassar a diferença sobre o preço final. “Mas em tempos de endividamento alto, aumentar os preços pode significar perda de mercado”, diz. Fazem parte desse grupo equipamentos eletrônicos e bens duráveis, que importam muito na produção e adicionam um valor pequeno aqui. “Por outro lado, além de estimular a produção nacional, melhora as contas externas.”

Opinião semelhante tem o presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), Fernando Figueiredo. Embora seja dependente da importação de insumos, o executivo acredita que, no médio prazo, a valorização do dólar pode ser benéfica para o setor, na medida em que diminui a importação do produto químico final, priorizando a compra de similares nacionais. “O aumento da compra de produtos nacionais pode compensar, e até superar, a alta nos custos que os insumos importados podem causar num primeiro momento”, diz Figueiredo.

Para João Carlos Visetti, presidente da Trumpf do Brasil, subsidiária do Grupo Trumpf, fabricante de máquinas-ferramenta que se utilizam da tecnologia do laser em chapas metálicas flexíveis, o efeito do câmbio valorizado é encarecer o investimento em toda a cadeia produtiva, pois inviabiliza a importação de máquinas e encarece a assistência técnica. 

“Damos assistência para máquinas que dependem de peças importadas, pois não há similares nacionais. Nesse caso, o repasse é inevitável, sob risco de a empresa deixar de utilizar o equipamento”, diz Visetti.

Presidente da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), Humberto Barbato diz que o setor também é lesado, especialmente em eletrônicos, já que não existe produção nacional de componentes de telefonia e computadores, por exemplo.

Segundo Barbato, as empresas têm remetido comentários sobre queda no ritmo de negócios, além de diminuição nas importações e no faturamento. Mas descarta a tentativa de repasse ou aumento de preços no produto final. “Este está sendo um ano difícil para os negócios”, afirma Barbato.

E, se depender do mercado global, 2015 não será muito diferente. Segundo a economista do Itaú Unibanco, Julia Wrobel Folescu Gottlieb o movimento de valorização do dólar deve permanecer em 2015 sobre diversas moedas, não só sobre o real.“Os dados de atividade dos Estados sugerem a continuidade da retirada de estímulos da economia e do início da elevação da taxa básica de juros”, diz.

Se isso se confirmar, explica Julia, a tendência é de migração de dólares de países emergentes em direção aos EUA. “Com a saída de dólares do Brasil, aumenta a pressão de alta na cotação da moeda americana”, explica.

Para Julia, ser ou não afetado por esse movimento depende da estrutura de custo e de receita de cada empresa. “Empresas de aviação, por exemplo, ficam bastante vulneráveis, pois têm o custo em dólar por conta da importação de insumos, mas a receita é em reais e isso traz certo desequilíbrio”.

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