A jazida de Libra, primeira área do pré-sal concedida sob contrato de partilha da produção no país, é o projeto petrolífero brasileiro mais vulnerável à queda das cotações do petróleo no mercado internacional. A avaliação é da consultoria Citi Research, que calcula em pouco mais de US$ 60 por barril o valor da cotação do Brent, negociado em Londres, para garantir a viabilidade econômica do empreendimento. O piso de US$ 60 por barril é visto como uma possibilidade real por analistas do setor, caso a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) mantenha a decisão de não cortar sua produção.
Na sexta-feira, o petróleo Brent fechou cotado a US$ 69,07 por barril. Em Nova York, o WTI fechou em US$ 65,84, o valor mais baixo desde junho de 2009. Em ambos os casos, a sequência de quedas já dura nove pregões e há grande especulação com preços menores em contratos de mais longo prazo. O cenário é provocado por um excesso de oferta do mercado internacional, resultado, principalmente, do crescimento da produção de jazidas não convencionais nos Estados Unidos.
Divulgado no final de novembro, o estudo do Citi aponta os preços de corte (break even) dos principais projetos de produção previstos para esta década. No Brasil, apenas Libra se situa acima dos US$ 60 por barril. Licitada como a maior descoberta brasileira de petróleo até então, a jazida é desenvolvida por um consórcio formado por Petrobras, a anglo-holandesa Shell, a francesa Total e as chinesas CNOOC e CNPC. As empresas pagaram R$ 15 bilhões pela concessão e se comprometeram a entregar 41,65% do petróleo produzido, excluindo os custos do projeto, ao governo, representado pela Pré-Sal Petróleo S.A (PPSA).
Outros projetos do pré-sal brasileiro incluídos no estudo (Lula, Pão de Açúcar, Tupi Sul e Franco) seriam viáveis com petróleo na casa dos US$ 40 por barril. Uma descoberta da espanhola Repsol na Bacia de Santos, batizada de Panoramix, é colocada acima dos US$ 70 por barril, o que a tornaria inviável a preços atuais. Executivos do setor, porém, dizem que a avaliação das empresas considera preços de longo prazo, que tendem a ser maiores do que os atuais. Em seu plano de negócios 2014-2018, a Petrobras diz que o break even dos projetos do pré-sal se situa, em média, em US$ 45 por barril.
De todo modo, especialistas estimam que mais de US$ 150 bilhões em projetos de produção de petróleo serão colocados em espera no ano que vem, se as cotações se mantiverem no patamar atual. “A US$ 70 por barril, metade dos volumes globais estão em risco”, diz o chefe de análise da Rystad Energy, Per Magnus Nysveen. As apostas de postergação de investimentos recaem sobre projetos no Ártico, nas areias betuminosas do Canadá e em reservas não convencionais nos Estados Unidos.
Segundo o relatório do Citi, o projeto mais caro em execução atualmente é o de Kashagan, no Casaquistão. É pouco provável, porém, que projetos já iniciados sejam interrompidos — os impactos se limitam a decisões ainda por tomar. Nas últimas semanas, executivos da Shell e da norueguesa Statoil acenaram com a prorrogação de decisões sobre projetos no Canadá e no Mar de Barents, respectivamente. A postergação de projetos em novas fronteiras é, segundo analistas, um dos objetivos da estratégia da Opep em manter os patamares de produção, movimento que é visto como uma disputa particular contra a crescente produção norte-americana.
Liderados pela Arábia Saudita e com um custo de produção mais barato do que a média mundial, os países exportadores não querem perder mercado para novos produtores, que só se viabilizam com as cotações em níveis superiores. Assim, decidiram, em sua última reunião, manter as cotas de produção, mesmo diante de quedas superiores a 40% nas cotações este ano. A disputa ganhou a capa da revista “The Economist” esta semana, com o título “Sheiks x Shale” (termo em inglês para folhelho, estrutura geológica onde são encontradas as jazidas não convencionais, que precisam de estimulação para sua produção, como o gás de xisto). com Reuters