Preços administrados serão os vilões da inflação em 2015

Outro fator de pressão serão os serviços, cuja inflação permanece alta por conta dos ganhos reais dos saláriosr o olho

Por O Dia

São Paulo - Às vésperas de encerrar o ano, a equipe de inflação do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV/Ibre) calcula que a inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preço ao Consumidor Amplo (IPCA), ficará à beira de estourar o teto da meta (6,5%) de 2014, ao redor dos 6,4%. E, para 2015, o clima de expectativa passa longe de contar com ventos favoráveis.

Segundo economistas ouvidos em reportagem da próxima edição da revista “Conjuntura Econômica”, da FGV/Ibre, a taxa de inflação para o próximo ano tende a repetir a variação atual ou até ultrapassar os 6,5% de teto. De acordo com o superintendente adjunto de Inflação da FGV, Salomão Quadros, o principal influenciador dessa pressão inflacionária serão os preços administrados, ou seja, aqueles controlados pelo governo, que já vêm puxando os resultados para cima.

Em 2013, a inflação desse grupo foi baixa, 1,7%. Em 2014, a estimativa é de que chegue a 17%. No próximo ano, os analistas esperam que ela supere os 20%, especialmente considerando o reajuste da tarifa de energia elétrica e do preço da gasolina, além do aumento previsto para passagens de ônibus em alguns estados.

Para Quadros, é possível que a energia seja a maior responsável pelo resultado, porque é o item mais livre para subir preços depois do desconto de 20% de 2013. “O preço da gasolina tem menos flexibilidade, apesar de estar defasado. Se aumentar 6%, 7% ou 8% em 2015, algo factível, já será uma ruptura porque ela subiu 3% no final deste ano e 4% no ano passado. Porém, um problema que pode afetar o reajuste da gasolina é a desvalorização do real, que tende a prosseguir em 2015”, afirma o economista. Segundo Quadros, a valorização do dólar, por si só, já vai recriar a defasagem entre o preço interno e internacional do combustível, deixando a gasolina brasileira mais caro.

Um capítulo à parte, diz o economista, será a inflação de serviços. Para Quadros, ano que vem não será diferente do que foi neste ano: ela vai continuar ajudando a sustentar a inflação nas alturas.

Apesar disso, diz, o cenário conta com um fator surpresa que pode causar uma queda de preços no setor — o mercado de trabalho. Ele lembra que o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) de novembro mostrou fechamento de 30 mil empregos formais. “Com esses sinais e a recessão se delineando, é possível vermos os salários crescendo mais devagar do que antes. Mas se isso ocorrer, os efeitos vão demorar a surgir, pois devem ser adotadas medidas para evitar uma piora grande no mercado de trabalho. Esse é um compromisso forte do governo, fazer ajustes que tragam menos sacrifícios para o emprego”, ressalta.

Além disso, diz, o preço da mensalidade escolar deve ficar mais caro em 12%, logo no início de 2015, por causa dos reajustes de salários dos professores e funcionários, aluguel e energia elétrica. “Esse é um indício que aponta para uma perspectiva de inflação de serviços se mantendo em patamares elevados. E não podemos esquecer o reajuste de 8,5% no salário mínimo”, lembra.

Dólar valorizado pode pressionar alimentos

Se neste ano, a estiagem foi o ponto de pressão na inflação de alimentos, em 2015 a valorização do câmbio será outro fator contra a queda de preços dos alimentos. O dólar se mantém na faixa dos R$ 2,60 frente aos R$ 2,30 vistos há poucos meses. “A mediana do Top 5 de curto prazo no boletim Focus para 2015 é um câmbio de R$ 2,70. A média do mercado para o ano que vem é mais baixa, R$ 2,61. Então, temos uma desvalorização do real de 15%. É mais pressão sobre alimentos”, ressalta Quadros.

Ele explica que o grupo é um dos únicos que contam com fatores favoráveis, já que as grandes safras deste ano no Brasil e nos Estados Unidos vão deixar como herança um bom nível de estoques. “Caso haja mudança climática, que é algo meio imprevisível, os estoques suavizam o efeito de subida de preços. Hoje, há estoques para atender à necessidade de possíveis quebras de safra, apesar de as estimativas de crescimento das safras de arroz e feijão em 2015 serem modestas”, explica o economista da FGV.

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