Indústria brasileira vive cenário igual ao da crise mundial de 2008

Emprego na indústria encolhe 0,4% em outubro e já acumula redução de 3% no ano — 16 das 18 atividades têm taxas negativas

Por O Dia

Rio - A recessão vivida pela indústria brasileira, que acumula queda na produção de 3% no ano, agrava a cada mês a crise no mercado de trabalho do setor. Pelo sétimo mês seguido, as demisssões aumentaram nas indústrias. O desaquecimento do emprego em outubro atinge 16 das 18 atividades e é disseminado nos 14 locais analisados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística para a Pesquisa Mensal de Emprego Industrial (Pimes/IBGE). De janeiro a outubro, o emprego na indústria caiu 3% em relação ao mesmo período em 2013. Para especialistas, os números são cada vez mais parecidos com os de 2008 e 2009, mas, desta vez, o cenário reflete uma crise interna.

Segundo o IBGE, no mês, a população ocupada assalariada caiu 0,4%. Na comparação com outubro do ano passado, a retração foi ainda maior, chega a 4,4%. Desde outubro de 2009, quando registrou queda de 5,4%, a indústria não atingia esse nível. “Estamos há sete meses com empresas dizendo que vão diminuir o total de pessoal ocupado. Essa situação, pouco comum, só se viu de novembro de 2008 a junho de 2009, ao longo de oito meses”, observa o coordenador do Núcleo de Pesquisas e Análises Econômicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Aloisio Campelo.

“Desta vez, a parcela de responsabilidade do país é cada vez maior. Em 2008 e 2009 tivemos uma crise gestada no exterior, com o cessamento de fluxos de crédito no mundo todo. Agora, não. Embora haja ainda um ritmo lento de crescimento no mundo, abaixo de 2004 e 2008, não vivemos uma situação de choque. A economia brasileira está numa fase intermediária de ciclo de consumo, com queda do consumo das famílias, porque estão endividadas e por causa da inflação alta. Estamos passando por uma fase de ajustes, e a política monetária afinando para um aperto”, afirma Campelo.

O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho, também revela o impacto que a recessão na indústria vem gerando sobre o mercado de trabalho. A apenas dois meses de finalizar o ano, o saldo de empregos na indústria de transformação chega a 46.981 postos — menos da metade do que foi gerado em 2013, com saldo de quase 122.730. Na extrativa mineral, a realidade é parecida: em 10 meses, foram gerados 1.076 postos.

Assim como os empregos, o número de horas pagas na indústria também está em queda. Em outubro, a retração foi de 0,8%, e na comparação com igual mês do ano passado, 5%. Um resultado nada animador para o longo prazo, visto que este é um indicador antecedente do nível de aquecimento do mercado de trabalho. “O número de horas pagas nos mostra a existência de uma jornada extra de trabalho. Quando se tem aumentos nessa variável, o próximo passo resulta em contratações futuras. Mas o resultado negativo reflete um setor industrial caminhando em dinamismo menor”, destaca André Macedo, coordenador da Pimes do IBGE.

O comportamento frio da indústria também se revela na folha de pagamento real. O indicador, que inclui, além do salário, os rendimentos recebidos por meio de hora extras, participação em lucros e resultados e bônus, tem no mês uma expansão de 1,1%. Mas, na comparação com outubro e no acumulado do ano, os resultados confirmam o movimento negativo: retração de 2,3% e de 0,3%, respectivamente.

Em termos de magnitude, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e São Paulo tiveram as maiores reduções em termos de pessoal ocupado no mês, com retrações de 5,1%, 5% e 5%. Mas todos os 14 locais pesquisados pelo IBGE apresentaram taxas negativas. No acumulado do ano, o cenário é parecido, trazendo o Paraná como segundo no ranking, com maior retração no emprego (-4,2%) e o Rio no mesmo patamar de Minas Gerais, com queda de 2,5%.

André Macedo, do IBGE, ressalta que essas regiões sofreram especialmente com a crise vivida pelas indústrias automobilística — inserida no grupo Meios de Transporte —, de máquinas e aparelhos eletroeletrônicos e de comunicações, de produtos de metal, de calçados e couro, e têxtil.

Esses são alguns dos principais setores que devem puxar a indústria para um resultado de retração de 2,8% no fim deste ano. É o que aponta o economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Rogério de Souza. Embora a sinalização de ajustes pela nova equipe econômica do governo possa trazer uma mudança de humor do empresariado, para o economista a recuperação pode demorar a vir.

“A esperança é que a produção industrial comece a reagir no segundo trimestre de 2015. Mas ainda é uma incógnita, pois teremos um ano com ajuste fiscal e aperto monetário ”, diz Souza. Para ele, o retorno da Selic a patamares menores é fundamental para a recuperação dos investimentos. “Os investimentos podem fazer com que a indústria e a economia brasileira saiam deste momento adverso. É importante lembrar que o aumento do desemprego na indústria, uma atividade de altos salários, impacta diretamente no setor de serviços e no comércio. Toda a economia sente os reflexos”, salienta.

Últimas de _legado_Notícia