Desigualdade no DF cresce na contramão dos demais estados brasileiros

Atlas, que aperfeiçoa o modelo do IDH, mostra que o Distrito Federal foi o único estado onde a desigualdade cresceu e que, mesmo com redução da pobreza no país, a violência aumenta

Por O Dia

Em dez anos — do Censo de 2000 ao Censo de 2010 — a exclusão social diminuiu em todos os estados brasileiros. Mas justamente em um dos mais ricos, o Distrito Federal, os indicadores mostram que a desigualdade aumentou — em grande parte graças ao crescimento desordenado das cidades-satélite. Nesses mesmos dez anos, enquanto o Piauí reduziu o número de municípios no ranking dos piores em indicadores de desigualdade, no vizinho Estado do Maranhão a situação piorou: entre as 5.466 cidades brasileiras, as seis com maior exclusão social são todas maranhenses.

De acordo com o “Atlas da exclusão social — Dez anos depois”, lançado em novembro, o município “líder” do ranking negativo é a pequena Santana do Maranhão, que acaba de completar 20 anos de idade e tem menos de 13 mil habitantes. A prefeitura da cidade tem home-page e página no Facebook, onde divulga iniciativas de saúde, educação e agricultura familiar. Mas, segundo o IBGE, o valor do rendimento nominal médio per capita nos domicílios da área urbana é de apenas R$ 226,80 por mês. Na zona rural, cai para R$ 60 mensais. Em contraste, Pomerode (SC), com quase 31 mil habitantes, é a cidade com menor exclusão social. Lá, segundo o IBGE, a renda média urbana per capita é de R$ 832,50, e na zona rural é de R$ 700 — quase 12 vezes maior que os R$ 60 de Santana do Maranhão.

Esses são alguns dos dados revelados pelo “Atlas da exclusão social no Brasil”, uma iniciativa independente de governos ou instituições, que usa dados do Censo 2010 do IBGE. O livro — que, pela quantidade e disposição das informações, lembra um típico atlas escolar — dá continuidade à primeira edição, de 2003, que foi baseada no Censo 2000. Agora, em janeiro de 2015, deve sair o segundo volume do novo atlas, onde os autores analisarão as mudanças de um censo para o outro.

O novo “Atlas da exclusão social” é fruto do trabalho de um grupo multidisciplinar de acadêmicos de São Paulo que inclui cinco economistas, um geógrafo, um jornalista e uma administradora pública. Desde o início da década passada o grupo (que inclui outros acadêmicos) se dedica a desenvolver um modelo de análise da exclusão social no Brasil mais abrangente que o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). O trabalho é feito sem apoio financeiro e o atlas é publicado graças a um acordo com a Cortez Editora — os autores abrem mão do pagamento e a receita da venda cobre os custos de impressão e divulgação da obra.

O geógrafo Ronnie Aldrin Silva, um dos autores do “Atlas”, conta que o grupo foi se formando a partir de uma insatisfação de estudiosos com o IDH. “Na nossa opinião, o IDH era bom, mas ainda era muito incompleto para dar conta da realidade brasileira. Ele analisa três características apenas (expectativa de vida, educação e renda) a partir do PIB — o que a gente também critica. Decidimos então tentar elaborar um índice de exclusão social mais completo, com os dados que tínhamos disponíveis e que pudessem ser replicados para todos os municípios brasileiros”.

Segundo Ronnie, o grupo desenvolveu várias publicações na década passada relacionadas ao tema: “A primeira (o atlas de 2003) era um retrato. Depois, fizemos o volume 2, que era uma análise da evolução daquela exclusão, pegando dos anos 60 até 2000. Aí, seguimos com uma terceira publicação, que era um estudo especificamente sobre os ricos no Brasil”.

A inspiração do trabalho foi o próprio IDH. “Mas uma inspiração com crítica”, ressalta Ronnie. “O IDH é extremamente positivo e consegue analisar diversos países a partir da fórmula do Amartya Sen, economista indiano que ganhou o Nobel de 1998. Só que, até para poder analisar diferentes países, é um índice mais restrito. Nós vimos que poderíamos enriquecer esse indicador, com informações confiáveis e oficiais”.

O grupo chegou a sete indicadores — Pobreza, Emprego, Desigualdade, Alfabetização, Escolaridade, Juventude e Violência — que mostram três dimensões sociais de um município: Vida Digna, Conhecimento e Vulnerabilidade Juvenil. Em seu conjunto, com pesos ponderados, os sete indicadores compõem o Índice de Exclusão Social (IES), que é o que se poderia chamar de uma versão brasileira mais abrangente do IDH. “A gente sabe que a realidade é muito mais complexa que esses sete indicadores. Mas esse é um esforço de tentar mensurar a realidade com os dados possíveis”, explica Ronnie.

Um das conclusões mais gritantes do atlas de 2014 é o aumento da desigualdade no Distrito Federal. “Todos os estados acabaram evoluindo para uma faixa melhor que a de 2000. O Distrito Federal pouco evoluiu na desigualdade e, hoje, é o estado mais desigual do país, pelo que a gente já conhece: o inchaço das cidades-satélite e a grande concentração de renda no Plano Piloto”, explica Ronnie.

A obra mostra que a pobreza vem diminuindo no país. “O Centro-Oeste, por exemplo, não era uma região de grande concentração de pobreza, mas deu um salto e evoluiu para uma renda média muito maior do que em 2000”, conta o geógrafo.
Por outro lado, a obra também aponta um aumento preocupante da violência. “A gente percebe que essa situação piorou muito no litoral do país”, diz Ronnie. “O Rio já não tinha uma situação boa em 2000, mas, subindo do Espírito Santo por todo o litoral, até o Ceará, a violência aumentou muito, assim como no interior do Pará. Em termos de evolução dos indicadores, isso é o que eu destaco de negativo”, lamenta.

O objetivo do “Atlas”, explica o geógrafo Ronnie, é ser uma ferramenta para o gestor público, de todo o país: “Por isso tem essa linguagem mais fácil, propondo-se a ser um atlas mesmo, com poucos textos e com enfoque na questão visual. O gestor consegue olhar os dados de seu município, comparar com a região do entorno de sua cidade, e identificar as razões para que seu município esteja em uma situação pior que a dos vizinhos”.

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