Por monica.lima

Rio - A produção de grãos no Brasil para a safra 2014/2015 deverá chegar a 202,18 milhões de toneladas, 4,5% a mais do que a safra passada, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). No entanto, os armazéns brasileiros conseguem comportar apenas cerca de 74% de toda a produção. Mesmo que haja revezamento entre as culturas nos silos, a defasagem existe, dizem especialistas, e ela é suficiente para pressionar o valor do frete, que teve uma alta de 12,5% nas últimas semanas, sendo fixado em R$ 270 por tonelada em Sorriso (MT).

Especialista do departamento técnico do Sistema Famasul (Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul), Justino Mendes explica que o produtor acaba sendo penalizado pela defasagem entre armazéns e a produção. “O ideal seria que o Brasil tivesse a capacidade de estocar 20% a mais a cada 1 tonelada produzida. Sem armazéns, o produtor tem a necessidade de escoar os grãos de forma mais rápida e a pressão sobre o frete aumenta, elevando os preços", afirma Mendes.

Analista da consultoria Agrosecurity, Luiz Rafael Azevedo calcula que os produtores que contam com silos próprios conseguem ganhar de 10% a 15% a mais pela soja, por exemplo, do que os que não contam com estocagem própria. “Se o armazém está nas mãos do produtor, ele vende a soja até agosto, controlando o preço no mercado em função da oferta e da procura. Sem armazéns, ele é obrigado a vender para as tradings e cooperativas, que pagam pelo frete e dão ao produtor uma quantia menor pela tonelada da soja”, diz Azevedo. “Um frete mais alto implica num ganho pela soja mais baixo”, acrescenta.

Rafael Ribeiro, consultor da Scot Consultoria, salienta que, além do frete, a própria carência de armazéns leva a uma maior pressão de venda nos grãos num momento não tão atraente. “Em função da baixa capacidade de estocagem, há uma pressão de venda num momento não tão interessante ao mercado, onde a liquidez está menor”, avalia Ribeiro, referindo-se à cotação da soja.

Analista de mercado da Ag.Rural, Daniele Siqueira mostra que, na comparação com o ano passado, os preços na Bolsa de Chicago estão 20% mais baixos. Mas, graças ao câmbio e ao prêmio de exportação, os preços ao produtor de Sorriso estão apenas 10% mais baixos que há um ano. No mercado doméstico, segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), a saca de 60 kg da soja estava sendo vendida, até ontem, no Porto de Paranaguá por R$ 61,80, bem inferior ao preço do ano passado, cotado a R$ 73,34, em 20 de janeiro.

“Mas o preço da soja deve cair ainda mais nas próximas semanas em reais, por causa da intensificação da colheita aqui no Brasil e lá fora”, aponta Rafael Ribeiro, salientando que a queda no preço do grão vai reduzir ainda mais os lucros ao produtor. Segundo ele, outro agravante foi o tabelamento de preços de fretes no Mato Grosso.

“As transportadoras estabeleceram entre si um preço fixo, aumentando o frete em até 15%. Até fevereiro, esse preço médio, que chega a R$ 270 em Sorriso, deve acelerar”, aposta.

Já para o especialista da Agrosecurity, a ampliação da frota de caminhões em 10% neste início de ano deve suavizar a pressão sobre a demanda, levando o preço do frete a ficar bem próximo do cotado agora.

“Mesmo que aumente, o frete não deve chegar ao pico de R$ 300 por tonelada, como em 2013. Creio que deva ficar entre R$ 270 e R$ 280”, projeta Luiz Rafael Azevedo, que aponta para os baixos estímulos aos produtores para a construção de silos como uma das causas para a distorção entre produção e estocagem.

“Só a partir de 2013, por meio do PCA (Programa para Construção e Ampliação de Armazéns) do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) que os produtores passaram a contar, efetivamente, com um apoio para a construção de armazéns”, opina Azevedo.

O PCA é um programa de apoio a investimentos que possui taxa de 4,0% a.a., participação de 100% dos itens financiáveis e prazos que podem chegar a 15 anos, considerando até 3 anos de carência. O Governo Federal estipulou o valor de R$ 25 bilhões para apoio à armazenagem distribuídos em 5 anos, com início no ano agrícola 2013/14. Na safra passada, o BNDES desembolsou ao todo R$ 1,198 bilhões para o PCA.

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