Ajuste fiscal é freio a mais na economia brasileira

Analistas e representantes da indústria e do comércio apontam que minipacote de aumento de impostos deve desestimular ainda mais o consumo, já abalado pela alta da taxa Selic; pressionar a inflação; e gerar desemprego

Por O Dia

Rio - Além do mau-humor com que foi recebido por empresários, o ajuste fiscal anunciado na segunda-feira pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, deve gerar efeitos colaterais sobre o país, reduzindo, ainda mais, o ritmo de atividade econômica, com impactos sobre o mercado de trabalho. Para economistas e representantes do comércio e da indústria, o minipacote de aumento de impostos, que visa reforçar o caixa do governo para cumprir a meta de superávit fiscal, pressionará a inflação das famílias, os custos de produção para a indústria e reduzirá o consumo, refletindo-se em retração para o comércio.

Economista e professor da PUC-SP, Antônio Corrêa de Lacerda vê de forma contraditória a política de ajuste fiscal. Para ele, num momento em que a economia está debilitada, o aumento da alíquota de 1,5% ao ano para 3% ao ano do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) vai ampliar a restrição ao crédito e gerar efeitos em toda a economia, não só no comércio.

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“Ao se contrair a demanda, vai-se frear ainda mais a economia, gerando uma recessão”, avalia Lacerda, destacando que setores ligados aos bens de consumo duráveis, seja no varejo ou na indústria, serão os mais impactados.

“É uma grande contradição, não estamos num momento de excesso de demanda para se restringir, ainda mais, o crédito, já impactado pela alta dos juros”, diz.

Já a professora da Coppead/UFRJ, Margarida Gutierrez acredita que o remédio para a economia brasileira é amargo, mas necessário para garantir o retorno da credibilidade ao país: “As medidas devem reduzir o nível de atividade econômica, com efeitos colaterais sobre a indústria e o comércio, e impactos sobre a inflação e o mercado de trabalho. Mas não tem jeito, são medidas que deveriam ser tomadas”, afirma a especialista, que projeta que o aumento da Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico ) e do PIS-Cofins sobre combustíveis deve aparecer no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) a partir de março.

O consumidor também sentirá o peso da alta de impostos no preço dos bens de consumo duráveis e semiduráveis. Além do preço do frete que deve subir, produtos que usam itens importados, como artigos de tecnologia de ponta, ficarão mais caros a partir do aumento da alíquota do PIS/Cofins sobre a importação. “É um conjunto de medidas recessivas. Retira-se R$ 20 bilhões da sociedade, num momento em que o nível de atividade é ruim. Pressiona-se preços e se afugenta investimentos, ao contrário do que se quer para elevar a confiança”, observa Altamiro Carvalho, assessor econômico da FecomercioSP.

Embora considere a necessidade de controle de inflação e ajuste fiscal, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) diz que o governo deveria se preocupar em atacar o aumento dos gastos públicos. “Num momento em que o PIB da indústria cai, é mais razoável buscar colocar um peso maior no setor público, que mostra crescimento real de despesa de até 10% ao ano”, considera Flávio Castelo Branco, gerente executivo de política econômica da CNI.

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