Crise hídrica afeta o Carnaval em várias regiões do país

Mais de 30 municípios em Ceará, Minas Gerais e São Paulo cancelaram os festejos. Em Ouro Preto e Rio de Janeiro, foliões e blocos incentivam uso racional

Por O Dia

Pelo menos 30 municípios de Ceará, Minas Gerais e São Paulo cancelaram as festividades de Carnaval por problemas de falta d’água. Em algumas cidades, como Ouro Preto, que conta com rodízio de abastecimento entre os bairros, e Rio de Janeiro — com dois reservatórios já no volume morto —, o esforço para manter os quatro dias de festa vem dos foliões e de blocos de rua, que têm incentivado o uso consciente da água dentro e fora dos desfiles.

Segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), cerca de 40 milhões de pessoas de nove estados do país, ou 20% da população brasileira, estão sendo afetadas pela falta d'água, que atinge de forma mais severa seis bacias hidrográficas . Com um prognóstico de chuvas para o ano 64% abaixo da média histórica, em 530 milímetros, o Ceará é um dos estados mais prejudicados pela estiagem.

O alerta da seca fez o Tribunal de Contas dos Municípios (TCM) recomendar aos 184 prefeitos do estado a suspensão do Carnaval. Até o momento, 24 municípios cearenses decidiram por cancelar os festejos e outros 16 mantiveram os eventos, que vão custar mais de R$ 6 milhões aos cofres públicos.

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Além do risco de desabastecimento, as cidades sofrem problemas financeiros provocados pela longa estiagem e também pela redução dos repasses da União por meio do Fundo de Participação dos Municípios (FPM). A falta de apoio financeiro do governo estadual para a realização do Carnaval também teria sido a gota d’água para o cancelamento de desfiles e blocos de rua. Por meio de decreto, o governador Camilo Santana suspendeu os repasses, para concentrar recursos no combate à seca.

“Após o prognóstico de que teríamos mais um ano de seca extrema, o governo do estado anunciou providências para garantir o abastecimento . Como os repasses de FPM e ICMS não têm crescido na medida necessária, decidimos por suspender despesas não essenciais”, afirma Veveu Arruda, prefeito de Sobral, um dos municípios que não terão festejos.

Em Cordeirópolis e Araras, municípios paulistas, os dias de folia também estão comprometidos. De acordo com o Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae) de Cordeirópolis, apesar das chuvas do início do ano, as represas que abastecem a cidade estão quase secas e a administração desistiu do desfile com os blocos de rua. 

Em Araras, a saída foi reduzir o Carnaval. Não haverá desfiles com escolas de samba e blocos, apenas bailes e matinês na praça da cidade. “Não há clima para um carnaval grande. A população está preocupada com a a falta de água. O que será economizado destinaremos a outras ações culturais”, diz o secretário de Cultura de Araras, Marcelo Daniel.

No Centro-Oeste mineiro, as cidades de Itapecerica, Itaguara, Oliveira, São Gonçalo do Pará e Carmópolis de Minas não contarão com festas. Por causa da estiagem, a Companhia de Saneamento de Minas (Copasa) e o Ministério Público do Estado têm recomendado a suspensão da folia. Segundo balanço da Defesa Civil do Estado, seis municípios decretaram estado de emergência por causa da seca só neste ano.

“É uma ação preventiva. A população sofreu bastante com a falta d’água em novembro”, diz o secretário de Cultura de Itapecerica, Wellington Daniel Cruz.

Tradicional por arrastar 75 mil foliões por ano no Carnaval, Ouro Preto vai manter a folia, apesar de já realizar rodízio de abastecimento nos bairros da cidade. Segundo a administração municipal, o sistema de abastecimentos acontece normalmente mas, em casos pontuais, o fornecimento de água é realizado por caminhões pipa. Com o apoio das repúblicas de estudantes, a Prefeitura de Ouro Preto também investiu em campanhas para incentivar a população ao consumo responsável e racionalizar a água.

A conscientização também é bandeira do bloco Imprensa Que Eu Gamo, do Rio de Janeiro: a organização suspendeu o uso de carros-pipa nos desfiles. Segundo Rita Fernandes, presidente da Sebastiana (Associação Independente dos Blocos de Carnaval de Rua), a iniciativa ainda não mobilizou outros grupos. Algumas escolas de samba, no entanto, como a União da Ilha, já anunciaram a substituição dos efeitos com água nos carros alegóricos por luz e fumaça.

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