São Paulo pode solicitar água de poços para atender à população

A capital paulista tem hoje entre 8 mil e 10 mil poços particulares,com vazão equivalente ao volume captado no Sistema Alto Tietê. Para especialistas, a legislação permite que a produção seja requisitada. Sabesp alerta para risco de cortes de fornecimento 5 dias por semana

Por O Dia

Rio - Enquanto o governo de São Paulo começa a preparar os habitantes para um possível rodízio no abastecimento de água este ano, especialistas apontam o uso de águas subterrâneas como alternativa para minimizar os impactos da estiagem sobre a população. Segundo estimativas, há hoje entre 8 mil e 10 mil poços perfurados na cidade, com uma vazão de até 10 metros cúbicos por segundo — o equivalente ao volume captado pela Companhia Estadual de Saneamento Básico (Sabesp) no sistema Alto Tietê. Em última instância, diz o advogado Wladimir Antônio Ribeiro, o governo pode requisitar a produção privada para abastecer a população.

Ontem, o diretor metropolitano da Sabesp, Paulo Massato Yoshimoto, alertou que a empresa poderá adotar o sistema de rodízio de cinco dias por semana sem água, caso não aumente o volume de chuvas no Sistema Cantareira. “Se as chuvas insistirem em não cair, teremos de fazer um rodízio muito pesado para ter uma economia necessária e não deixar que o nível continue caindo como está”, disse durante visita a Suzano, ao lado do governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin. 

A Sabesp ampliou a estratégia de reduzir a pressão no fornecimento de água, antes feita só durante a madrugada, para o período da tarde. Agora, os horários de redução são informados no site da empresa. “(A medida) está atingindo toda a região metropolitana de São Paulo. Se os órgãos reguladores chegarem à conclusão de que temos que retirar menos água do que estamos retirando, teremos que adotar o rodízio”, disse Yoshimoto.

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“A Sabesp já vem anunciando algumas medidas, mas o problema é que os planos de contingência das bacias hidrográficas não pensaram em um momento de extrema escassez”, avalia Ribeiro, especialista em recursos hídricos do escritório Manesco, Ramires, Perez, Azevedo Marques. “E a pergunta é: dá para descartar o pior cenário? Se não, qual o plano? Vai buscar água aonde, para quantas famílias, em qual periodicidade?”, questiona. Para ele, a requisição de uso dos poços particulares é uma das alternativas viáveis. Em Itu, a prefeitura requereu no fim do ano passado água subterrânea captada por duas fazendas para minimizar os impactos da seca.

“As águas subterrâneas são a primeira alternativa para o curto prazo. A Sabesp já capta esse tipo de água em locais mais isolados”, diz o presidente da Associação Brasileira de Águas Subterrâneas (Abas), Carlos Eduardo Giampá. Ele pondera, no entanto, que trata-se de uma captação bastante distribuída geograficamente, com poços de pequena vazão, o que pode criar dificuldades logísticas para captar e distribuir grandes volumes.

Segundo Giampá, o potencial de captação de águas subterrâneas na região metropolitana é bem maior do que os volumes verificados atualmente, considerando que 30% da água da Sabesp é perdida no sistema de distribuição e ajuda a recompor os aquíferos. Ele diz ainda que há grande número de poços clandestinos, que precisam ser fiscalizados pelo Departamento de Águas e Energia Elétrica (Daee), responsável pela outorga das águas subterrâneas no estado de São Paulo. Em setembro, diz, havia apenas 2.081 outorgas para esse tipo de captação, número bem inferior ao total estimado de poços.

Giampá conta que a procura pela perfuração de poços artesianos vem crescendo nos últimos meses, à medida em que o risco de desabastecimento aumenta. São residências, condomínios e conjuntos comerciais em busca de segurança no fornecimento. A perfuração de um poço para captação de água leva em torno de 60 dias, considerando a etapa de licenciamento ambiental.

Depois de registrar quedas diárias nos últimos 19 dias, o nível do Sistema Cantareira ficou estável ontem em 5,1%. Nos seis reservatórios que formam o Sistema, principal manancial da região metropolitana de São Paulo, o acumulado de chuva neste mês está em 113,2 milímetros e seria necessário chover mais 158 mm nesses próximos cinco dias para que alcançasse a média histórica de janeiro (271,1 mm). No Sistema Alto Tietê, o volume voltou a cair, atingindo 10,3%.

Paraíba está 25% pior do que a maior seca histórica

Com o nível dos reservatórios em queda a cada dia, a estiagem no Rio Paraíba do Sul é a pior já registrada. De acordo com o diretor executivo do Comitê Guandu, Julio Cesar Antunes, que participou ontem da reunião do Grupo Técnico de Acompanhamento de Operações Hidráulicas, a situação está 25% pior do que a maior seca registrada até então.

De acordo com o boletim diário da Agência Nacional de Águas (ANA), o Sistema do Paraíba do Sul está com 0,61% do volume útil total, somando Santa Branca, Paraibuna, Jaguari e Funil, sendo que os dois primeiros já entraram no volume morto. Na terça-feira, o volume total dos quatro reservatórios estava em 0,66%.

Antunes explica que já está sendo feito há algum tempo o ajuste da vazão objetiva, em Santa Cecília, onde ocorre a transposição do Paraíba do Sul para o Sistema Guandu. De acordo com Antunes, os atores apresentaram, em reunião realizada ontem, as medidas que estão sendo adotadas para enfrentar a crise hídrica na região. Outro encontro será realizado amanhã, para definir novas medidas. 

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