Por diana.dantas

A Petrobras passará por um processo de “redimensionamento” para se adequar à nova realidade do mercado, com os impactos da Operação Lava Jato e a queda do preço do petróleo no mercado internacional. A afirmação foi feita ontem pela presidente da companhia, Graça Foster, em coletiva com a imprensa para explicar o balanço do terceiro trimestre de 2014, divulgado na madrugada do dia anterior. Segundo ela, o novo plano de negócios da empresa, que será divulgado em junho, trará redução de investimentos e revisão de prioridades.

“O mote do novo plano é o redimensionamento da Petrobras, no sentido de garantir sua financiabilidade e de se adequar à capacidade de construção de equipamentos no Brasil e no exterior”, disse a executiva. O plano de negócios 2014-2018 trazia investimentos de US$ 220,4 bilhões, uma média de cerca de US$ 44 bilhões por ano. Para 2015, o valor anunciado já será bem menor: US$ 31 bilhões a US$ 33 bilhões. A redefinição dos investimentos terá impacto em todas as áreas da companhia, incluindo Exploração e Produção, a que recebe mais recursos.

O ritmo da curva de crescimento da produção de petróleo será desacelerado e os aportes na busca de novas reservas, diminuídos. “Se formos participar de novos leilões (de áreas exploratórias) será de uma maneira bastante seletiva”, explicou o diretor de Exploração e Produção da estatal, José Formigli. Ele explicou que a empresa tem hoje reservas para manter a produção por 19 anos, prazo bem superior à meta de 12 anos estipulada em seu Planejamento Estratégico, o que lhe permite reduzir o esforço exploratório.

A área mais afetada pelo corte de investimentos, porém, deve ser a de Abastecimento, centro das investigações sobre esquema de corrupção na estatal. Além do cancelamento das refinarias projetadas para o Ceará e o Maranhão, que geraram perdas de R$ 2,7 bilhões no balanço do terceiro trimestre, a empresa vai renegociar contratos de outros projetos em curso, como o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) e Refinaria Abreu e Lima (Rnest).

Graça disse que, para este ano, a prioridade serão projetos que garantam a geração de fluxo de caixa no curto prazo. A empresa inicia 2015 com um caixa de US$ 25 bilhões e pretende chegar a 31 de dezembro com, no mínimo, US$ 8 bilhões, considerando a geração operacional de US$ 28 bilhões a US$ 32 bilhões e a entrada de outros US$ 3 bilhões em vendas de ativos para ajudar a bancar os investimentos e US$ 16 bilhões a US$ 18 bilhões em dividendos, amortizações e juros da dívida.

Para isso, Graça conta com a manutenção dos preços da gasolina e do diesel durante todo o ano, mesmo que as cotações internacionais permaneçam em patamares mais baixos. “Os preços da gasolina e do diesel serão mantidos em 2015. Podemos ter uma pequena perda de market share, mas acho que isso será positivo para nós”, comentou. Segundo cálculos da empresa, cada 5% de redução no preço da cesta de combustíveis da empresa representa uma perda de US$ 3 bilhões no fluxo de caixa. Hoje, segundo cálculos de analistas, os preços internos estão entre 40% e 60% superiores às cotações internacionais.

Além de reforçar um discurso de austeridade, a diretoria da Petrobras tentou convencer analistas da dificuldade em calcular os impactos da corrupção no balanço da estatal. A divulgação do resultado do terceiro trimestre foi adiada duas vezes com a justificativa de que os custos estavam sendo calculados, mas o Conselho de Administração optou por jogar a questão para o futuro novamente. Segundo Graça, a área técnica da empresa vai se debruçar sobre as avaliações de consultorias externas, que identificaram uma perda de valor de ativos na casa de R$ 88,6 bilhões.

“A Petrobras não recomendou a utilização dessa metodologia, porque ela considera uma dezena de variáveis”, explicou a executiva, citando as variações de preços do petróleo e de projeções de crescimento de mercado. De acordo com Graça, o cálculo representa o valor de venda dos ativos isoladamente, sem considerar as sinergias que cada projeto tem com outras áreas do Sistema Petrobras. “Vamos aprofundar a tecnologia visando a emissão das demonstrações contábeis no menor prazo possível”, afirmou.
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A empresa tem até o final de abril para divulgar o balanço anual auditado, sob o risco de resgate antecipado de dívidas. O prazo já foi renegociado com credores, diante das dificuldades para mensurar os impactos da corrupção — sem eles, a PriceWaterhouse Coopers não auditará o balanço.
A delicada situação financeira da Petrobras pode respingar também nos dividendos pagos aos acionistas, admitiu o diretor financeiro da companhia, Almir Barbassa: “Há a possibilidade de não haver pagamento de dividendos, essa é uma alternativa que pode ser avaliada dependendo da situação da companhia”.
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Construção do Comperj terá ritmo reduzido

O esforço da Petrobras para chegar ao fim do ano com recursos em caixa bate indiretamente em Itaboraí, na região metropolitana do Rio, onde está sendo construído o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj). Segundo o diretor de Abastecimento da estatal, José Carlos Cosenza, a empresa já está em negociações com fornecedores para reduzir o ritmo de construção da unidade, que nasceu para ser um polo petroquímico e hoje é apenas uma refinaria.
As obras já vinham andando em ritmo lento, com muitas demissões no município. Mas agora, com as implicações da Operação Lava Jato, a decisão de rediscutir os contratos se tornou oficial. entre os responsáveis pelas obras estão a UTC Engenharia e a Odebrecht, que são investigadas pela Polícia Federal como participantes de um cartel de construtoras que pagaria propina para obter contratos com a estatal.
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“Estamos diminuindo a velocidade no Comperj e a Unidade de Fertilizantes III está parada, já que não chegamos a um acordo com o consórcio”, comentou a presidente da estatal, Graça Foster, referindo-se ao rompimento de contrato com o consórcio formado entre a Galvão Engenharia, também investigada na Lava Jato, e a chinesa Sinopec, para uma fábrica em Três Lagoas (MS).
Cosenza disse que a empresa vai renegociar também termos da segunda fase da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco (Rnest). Mas, neste caso, pode ser para acelerar as obras, uma vez que a estatal suspendeu a construção das refinarias do Ceará e do Maranhão, liberando recursos para investimento.
O cancelamento das duas refinarias foi recebido com indignação nos estados. “Essa atitude representa uma quebra unilateral do compromisso firmado com o estado e configura um desrespeito da empresa com o povo cearense”, afirmou, em nota, o governo do Ceará. A Secretaria de Estado de Indústria e Comércio (Seinc) do Maranhão disse ter esperança que as obras sejam retomadas, dada sua importância econômica para o estado.
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