Por monica.lima
Publicado 19/03/2015 12:08 | Atualizado 19/03/2015 12:32
“No Brasil, o aporte público de recursos para P&D e inovação, em proporção ao PIB, não é tão baixo em relação ao mundo. O gasto das empresas com P&D é que é baixo”, diz Oliveira da Embrapii Piervi Fonseca

Com pouco mais de um ano de fundação, e, aparentemente, imune ao ajuste fiscal e ao pessimismo dos empresários, a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) está a cinco unidades da meta estabelecida no marco de criação: 23 institutos de pesquisa conveniados até 2015. No comando da instituição desde quando ela era uma inspiração de centros europeus de pesquisa aplicada à indústria, como Carnot (França) e Fraunhofer (Alemanha), o cientista João Fernando Gomes de Oliveira é um entusiasta do modelo, que tem na intermediação entre indústria e instituições científicas a fórmula para impulsionar a inovação. Para o diretor-presidente da Embrappi, quando se fala em P&D, a crise passa ao largo dos empresários: “A resposta aos planos de ação tem sido surpreendemente rápida”.

É possível alcançar a meta de 23 unidades Embrapii (instituições de pesquisa e inovação conveniados) em um ano de cenário tão desfavorável?

Nós estamos adiantados, temos que criar mais cinco unidades ao longo de 2015 e não vejo problemas, porque, apesar de ser um ano de ajuste fiscal, a Embrapii tem a vantagem de aportar um terço dos recursos. Os outros dois terços vêm das empresas e de contrapartida das instituições de pesquisa parceiras. De acordo com os valores planejados com os ministérios e o orçamento já alocado, eu enxergo que a gente consegue cumprir nossa meta.

E do lado dos empresários? 

A resposta aos planos de ação tem sido surpreendentemente rápida. O faturamento de alguns institutos de pesquisa no ano de 2014, um ano difícil, foi recorde. A previsão é que, em 2015, não haja crescimento nesse nosso segmento. Mas, a grande dúvida é se haverá encolhimento e qual seria esse encolhimento. Nossa visão, aqui na Embrapii, é que, dentro das áreas consideradas mais estratégicas, nas quais já tínhamos uma previsão concreta de mercado, as coisas devem continuar acontecendo, sem muita perturbação. É lógico que alguns setores podem sofrer mais do que outros, mas não estamos pessimistas em relação à inovação em 2015. O nosso plano de criação e implementação trabalha com um novo sistema de fomento e de estrutura de laboratórios para estímulo à inovação no Brasil. A meta é ambiciosa, mas não impossível. Temos uma demanda reprimida e, por isso, não devemos ser muito afetados. Ainda assim, apesar de ser um otimista em relação à nossa perspectiva de captar projetos, vejo que, certamente, o grande desafio das unidades Embrapii será o de cumprir com o plano de manter um conjunto de projetos, ativos e vivos, com as empresas.

Em 2014, a Embrapii recebeu R$ 260 milhões. Como está o caixa para 2015?

Em termos de orçamento, a Embrapii está voando de acordo com o planejado. Temos à mão uma reserva de R$ 90 milhões de 2014, que restou para este ano. E temos mais R$ 350 milhões para uso até meados de 2016, que serão aplicados nos planos de ação das unidades. Não vamos ter dificuldades com recursos para formalizar contratos. O grande desafio será as unidades acelerarem em sua capacidade de contratação. O que acredito que também vai funcionar.

Por que é tão difícil investir em inovação no Brasil ? 

As empresas têm aversão ao risco, os instrumentos que são oferecidos a elas são apenas de redução de custos, os empresários desconhecem o sistema de ciência e tecnologia brasileiro, e a velocidade dos projetos subvencionados é lenta para as empresas, o que leva ao desânimo. Esses são pontos que a Embrapii tenta equacionar, mostrando com clareza quem são os melhores centros de pesquisa que operam com padrões de excelência operacional. Os processos de negócio são desenhados por uma equipe Embrapii, que cobra das unidades velocidade de resposta e entrega de projetos no prazo e com gestão de qualidade. É como se fosse um sistema todo certificado de qualidade, onde o empresário deixa de ter medo de que o projeto não vá acontecer e contrata tudo muito rápido, porque a decisão é só dele. O empresário também não paga toda a conta. Se o risco for maior, ele paga menos.

Há ainda uma distância grande entre o que se produz nas universidades e o que a indústria necessita?

Esse é o maior desafio. Os centros tecnológicos muitas vezes fazem o planejamento com base na vontade individual de seu conjunto de pesquisadores. E isso acontece não só no Brasil. O que a Embrapii trabalha é pela introdução de um tipo de planejamento Top-Down nas organizações. Em outras palavras, seria o mesmo que dizer para a universidade: “Mostre para mim que você é capaz de entender a demanda do setor X, quais são as grandes oportunidades tecnológicas e as competências, e como você vai se articular internamente para resolver os problemas desta área”. Se a universidade apresentar isso direitinho por meio de um plano de ação, a Embrapii oferece uma subvenção extra para atuar com esses setores e fazer a diferença. É como se entrássemos entre a mantenedora do centro de pesquisa ou universidade e a indústria e colocássemos um componente Top-Down de planejamento para atender à demanda industrial.

Como é a captação de recursos junto à Embrapii?

O centro de pesquisa ou universidade apresenta um plano de ação mostrando que está focado em uma área, que conhece o setor, as empresas e os projetos desenvolvidos por elas e suas tendências, e como ele vai cooperar com essas empresas de forma que consiga inovar dentro dos gaps que ela têm. No plano de ação também será preciso constar quantos contratos serão realizados ao longo de seis anos, quanto em dinheiro será captada e em quantas empresas e, para isso, qual é a quantia que o centro de pesquisa vai precisar da Embrapii. Nesse sentido, a Embrapii pega 10% desse valor e adianta para ele.

E em seguida, há algum acompanhamento dessa verba?

A instituição envia para nós um plano de ação, com competências específicas, um conjunto de empresas que serão parceiras e, depois, a gente aprova e atribui a essa instituição a capacidade de avaliar e julgar seus próprios projetos. Depois acompanhamos precisamente. A instituição escreve o projeto para a empresa, e quando ela der o Ok, a instituição começa a trabalhar e os recursos da Embrapii são liberados. Por sua vez, a Embrapii acompanha passo a passo se o projeto está no foco. Damos a liberdade e auditamos. Com isso, conseguimos ter velocidade no sistema e, por isso, alcançamos em dois meses nove contratos e R$ 14 milhões contratados.

A Embrapii oferece apenas um terço dos recursos?

Na verdade, a Embrapii oferece, no máximo, um terço de toda a necessidade de recursos para desenvolver o plano de ação, e não o projeto. Ela pode até dar mais para o projeto. O conjunto de empresas que trabalha com a unidade Embrapii tem que colocar, no mínimo, um terço de toda a necessidade de custos de toda a unidade Embrapii. O resto é contrapartida. Esse resto pode ser um terço, no máximo, ou 10%, por exemplo, se as empresas colocarem mais dinheiro. É possível que eu tenha um projeto de altíssimo risco, no qual a empresa põe uma parte menor e a Embrapii põe mais, e outros de baixo risco, nos quais a Embrapii põe menos, e a empresa, mais. Esse ajuste é feito pela unidade de pesquisa. A Emprapii só acompanha se ela está mantendo as porcentagens adequadas.

É um modelo em que a empresa precisa também garantir um bom aporte.

A gente entende que precisa haver um comprometimento das empresas nessa alavancagem. Tudo isso tem como pano de fundo não só os modelos que estão funcionando no exterior, como aqueles que aprendemos muito e são uma referência nossa, como a Fraunhofer e o Carnot. No Brasil, o aporte público de recursos para P&D e inovação, em proporção ao PIB, não é tão baixo em relação ao mundo. O gasto das empresas com P&D é que é baixo. Se você tem um sistema que alavanca o investimento privado, na ponta (no projeto), eu consigo empresas empolgadas com a iniciativa. 

A queda internacional no preço do petróleo e a crise na Petrobras podem desestimular os investimentos no Brasil?

Temos duas unidades focadas em petróleo e gás, uma em engenharia submarina, e outra em engenharia de dutos. Há uma dúvida grande do quanto a demanda por tecnologia nesses setores vai acontecer, apesar de toda a crise de preços do petróleo e como o mercado vai seguir no Brasil. A Embrapii teve uma fase piloto, quando contratamos R$ 188 milhões na área de petróleo e gás. Em janeiro e fevereiro deste ano, já com as 13 unidades Embrapii, contratamos R$ 14 milhões. Hoje, já estamos com R$ 200 milhões em histórico de contratos e todos os projetos seguem, sem cancelamentos. Logo, é muito difícil relacionar o mercado com a atividade de desenvolvimento e inovação da empresa. Muitas vezes, a empresa está fraca no mercado e quer tentar usar todo o seu fôlego para inovar e se rejuvenescer. É como se a inovação fosse uma cirurgia necessária à indústria. Por isso, não enxergamos como uma consequência natural de uma crise econômica, de um ajuste fiscal, a redução nas atividades de P&D para a inovação.

A indústria pode superar o ciclo de retração de produção, que vive hoje, com inovação?

Nosso pensamento na Embrapii é que a competitividade da indústria brasileira depende de uma lista gigantesca de fatores, mas não há dúvida de que a capacidade inovadora pode se sobrepor a uma série deles. Os americanos tinham um problema de custo de materiais alto em relação a gás, petróleo e mão de obra. De repente, com uma tecnologia, eles mudaram o cenário de custo, porque o gás natural ficou barato, a energia idem, e o Texas virou “O Lugar” para você montar uma indústria química no mundo hoje. Na nossa cabeça, podemos dizer que daqui a seis anos, com todos esses planos de ação se desenvolvendo em todas essas áreas, vamos ter muita novidade boa. O único caminho para virarmos esse jogo da indústria é por meio da inserção verdadeira de novos materiais e tecnologias, e do uso de inteligência em produtos como uma nova cultura de mais conhecimento dentro da indústria.

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