Indústria de transformação ainda está longe de sair da crise, aponta FGV

Perspectiva de contração da economia no primeiro trimestre deste ano inibe reação do setor, mesmo com alta da moeda americana

Por O Dia

Rio - Com a atividade econômica caminhando a passos lentos, ganham força as perspectivas de que o primeiro trimestre do ano tenha fechado com retração, puxada por mais um declínio da indústria de transformação — com peso de 10,9% sobre o Produto Interno Bruto (PIB) — e seus impactos sobre o comércio e os serviços. Somado ao cenário adverso, as sondagens de expectativa dos empresários da indústria não apontam para uma reversão da crise no futuro imediato. Segundo analistas, a indústria de transformação deve seguir ainda por uma trajetória de desaceleração neste ano, que nem o câmbio, na casa dos R$ 3,20, será capaz de frear.

“Enquanto a estimativa do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) para o PIB de 2015 está em -1%, a indústria geral deve retrair 2,9% e a de transformação 4%, mesmo com as perspectivas positivas dos efeitos da desvalorização cambial sobre as exportações”, afirma o economista e consultor da Fundação Getúlio Vargas (FGV/Ibre), Silvio Sales.

“Se a economia mundial não retomar a atividade, não haverá espaço para uma forcinha do dólar na indústria brasileira. Além disso, quando se soma custos com energia, cargas tributária e trabalhista excessivas, e a falta de infraestrutura do país, a desvalorização do câmbio não compensa no cálculo final”, diz Guilherme Leão, economista da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), para quem o dólar a R$ 3,20 deve gerar um alívio “momentâneo” ao setor industrial.

A desvalorização cambial também não tem provocado mudanças relevantes no humor dos empresários. O índice de confiança de março da FGV, divulgado ontem, apontou queda de 9,2% entre fevereiro e março. O indicador, que estava em 85,8 pontos em janeiro, passou para 83 pontos em fevereiro e, agora, está em 75,4 pontos — o menor patamar desde janeiro de 2009, quando atingira 74,1 pontos. Bens de capital e duráveis continuam sendo as categorias com menor nível de confiança.

Mais sensíveis ao humor de empresários e também dos consumidores, os segmentos ligados a essas categorias apresentam os piores níveis de produção e emprego. Nos últimos 12 meses até janeiro, a produção da indústria de transformação caiu 4,7% e o total de pessoal ocupado retraiu 3,4%. A indústria automobilística, que aparece na pior posição do ranking de atividades, teve queda de 17,2% na produção e demitiu mais de 44 mil pessoas de março a fevereiro de 2014, segundo dados do Cadastro Geral de Empregadas e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho.

Para retirar a indústria do poço, os economistas apontam para a retomada de programas de concessão e parcerias público-privadas na área de infraestrutura pelo governo, já a partir do segundo semestre. “Mas, sob novos moldes, que garantam maior segurança jurídica aos investidores”, observa Guilherme Leão.

“Se a demanda por infraestrutura deslanchasse no país, poderíamos assistir a uma recuperação, com fortes efeitos para 2016” avalia Silvio Sales.

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