Indústria brasileira quer mais acordos para enfrentar a crise

Setor pede que governo repita com o Chile negociações para cooperação comercial feitas com países africanos

Por O Dia

Brasília - O fraco desempenho da economia tem sido usado como argumento por empresários da indústria para convencer o governo a negociar acordos de livre comércio com países parceiros. A justificativa é que, diante do tombo da demanda interna, as indústrias brasileiras poderiam recorrer a mercados externos para escoar parte da produção encalhada nas fábricas. Com isso, seria possível evitar a piora do setor, que passou a anunciar demissões em massa, queda nas vendas e que, em 2015, poderá registrar o segundo ano consecutivo de retração.

A aposta dos industriais é que, com a alta do dólar e a menor pressão de custos por conta da moderação dos reajustes salariais, os produtos fabricados no país, sobretudo manufaturados, ficarão mais competitivos ao mercado externo. Mas, aproveitar essa vantagem, dizem, exigirá agilidade do governo para retomar acordos bilaterais ou criar novas parcerias comerciais, a exemplo do que foi feito há duas semanas com Moçambique e Angola, quando o Brasil firmou acordos de cooperação e facilitação de investimentos.

Dessa vez, o mercado que os industriais elegeram como prioridade na agenda de integração é o Chile. Hoje, uma missão de empresários brasileiros, liderada pela Confederação Nacional do Comércio (CNI), assina na capital chilena declaração conjunta de interesse com industriais daquele país. O documento pede de uma ampliação do Acordo de Complementação Econômica 35, vigente desde 1996, mas que é restrito à isenção de impostos na comercialização de bens entre os dois países. A ideia, agora, é incluir no documento temas como facilitação de comércio, propriedade intelectual, compras governamentais e acordo de liberalização de serviços.

Os empresários também pretendem convencer os governos a aprovarem acordos de cooperação e facilitação de investimentos, a exemplo do que ocorreu com países africanos. Em nota, o Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic) disse que, nesse ultimo quesito, há possibilidade de diálogo. “O governo brasileiro tem a intenção de negociar com outros países africanos, e também com países latino-americanos, inclusive com o Chile”. No ano passado, continua o texto, o Brasil apresentou minuta de acordo para verificação do governo chileno durante reunião bilateral realizada em outubro.

Outras propostas dos empresários, porém, deverão ser discutidas quando a missão voltar do Chile. A ideia é que a carta de intenções seja levada ao Mdic e o Itamaraty já nas próximas semanas. Depois disso, o próximo passo será convencer ministros da área econômica a levar os temas para discussão no âmbito da Câmara de Comércio Exterior (Camex), órgão formado por oito ministérios. Por telefone, do Chile, o diretor de Desenvolvimento Industrial da CNI, Carlos Abijaodi, disse que as negociações com o governo são uma prioridade. “Agora, é hora de retomar o contato com países prioritários para o Brasil. Principalmente o Chile, que tem uma abertura muito grande comercial, e que poderá nos oferecer imensas possibilidades de integração produtiva.”

A escolha pelo Chile não foi por acaso. O país pertence à chamada Aliança do Pacífico — atualmente, o segundo bloco econômico em importância na América Latina, atrás apenas do Mercosul, e tem forte relação comercial com a Ásia e com os Estados Unidos, o que torna o país quase um entreposto comercial, além de presença expressiva em investimentos no Brasil. No ano passado, o Chile liderou as remessas de Investimentos Estrangeiros Diretos para o país, entre os países sul-americanos, segundo dados do Banco Central — ao todo, os aportes em empresas e negócios brasileiros somam cerca de US$ 20 bilhões, aplicados, em áreas como papel e celulose, varejo e energia. Atualmente, o país é o 11º no ranking de parceiros comerciais do Brasil. Mas 51% da pauta de exportações é composta por produtos básicos.

É nesse quesito que os empresários pretendem se concentrar. “O Chile faz parte da Aliança do Pacífico e, se a gente não se aproximar, outros países vão fazer”, disse o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil, José Augusto de Castro. Para o ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda Julio Gomes de Almeida, a ampliação de acordos comerciais poderá ajudar a melhorar o saldo e o perfil da balança comercial, com substituição de commodities por bens acabados. “Este ano, a demanda de bens industriais no Brasil está muito baixa. A indústria precisa buscar alternativas para escoar a produção.”

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