Ajuste dita nova rota de crescimento para o país

Analistas apostam no acerto do caminho adotado por Joaquim Levy e acreditam que o modelo de desenvolvimento vai mudar

Por O Dia

Brasília - Apesar do cenário econômico que inspira preocupação e cautela, especialistas — de dentro e de fora do governo — avaliam que boa parte das mudanças necessárias para o país voltar aos trilhos do crescimento já estão em curso. A correção do câmbio para patamares próximos à taxa de equilíbrio; a redução dos déficits externo e fiscal; o realinhamento de preços, especialmente dos administrados; e o fim do boom de consumo, segundo analistas, conduzirão a economia a uma nova rota de expansão. E, mais que isso, mudarão o modelo: “Não há dúvidas de que os ajustes em curso rompem o modelo de crescimento adotado no primeiro mandato (da presidenta) Dilma Rousseff”, atesta um ministro ouvido pelo Brasil Econômico, que pediu para não ser identificado. “A partir do momento que a transição estiver concluída, o país ingressará numa nova fase de expansão, que, embora possa ser menos intensa, deverá se sustentar por bastante tempo, sem sobressaltos”, acrescenta.

Há um porém na avaliação desse ministro: mesmo dentro do governo, a constatação é que os efeitos do ajuste, no curto prazo, ainda se mostrarão implacáveis para os consumidores. “A correção de rumos na economia já está em curso, o que é bom para o país, mas, ao mesmo tempo, significa a continuidade das más notícias para as pessoas”, diz a economista-chefe da ARX Investimentos, Solange Srour, citando o aumento do desemprego, uma fatura mais pesada a pagar com juros, por causa da alta da Selic, e a manutenção das taxas elevadas do dólar, o que tornará o custo de importados mais elevado e deixará mais distante o sonho de viagens ao exterior, enumera. E não espere melhora desse cenário pelo menos até o segundo semestre de 2015. "Nós estamos ainda no começo da tempestade. O pior da crise ainda vai vir", reforça o economista-chefe da Boa Vista Serviços, Flávio Calife. “É um cenário delicado, é verdade, mas, ao mesmo tempo, começamos a enxergar a luz no final do túnel, o que até bem pouco tempo não era possível”, atesta.

Não são poucos os motivos que levam a essa conclusão. Desde que a presidenta Dilma Rousseff foi reconduzida para um segundo mandato, uma série de fatores, tanto internos, quanto externos, contribuiu para mudança de rumos na economia. A começar pelo dólar, que sobe sem parar desde agosto de 2013, mas que acelerou esse processo nos três últimos meses do ano passado. Guiada por uma perspectiva de mudança na política monetária dos Estados Unidos, a moeda americana ganhou terreno frente a praticamente todas as divisas. Com o real, não foi diferente. Apenas em 2014, a desvalorização do câmbio chegou a 12,8%. Neste ano, mesmo diante de seguidas mudanças de direção nas cotações, a depreciação já soma mais 15,5%.

Diretor de Pesquisas para América Latina do banco Goldman Sachs em Nova York, o economista português Alberto Ramos estima que o câmbio de equilíbrio para o Brasil voltar a crescer e reduzir pressões sobre as contas externas seria de algo entre R$ 3,10 e R$ 3,20. Abaixo, portanto, das máximas registradas no ano, que chegaram a ultrapassar os R$ 3,30, e bem próximo da trajetória recente da moeda, que encerrou o dia, ontem, cotada a R$ 3,12.

O impacto desse novo patamar para o câmbio nas contas externas não é imediato, e, em geral, leva de seis meses a um ano para que o repasse seja pleno. Mesmo assim, números recentes sugerem alguma melhora. Há dois meses que o rombo em transações correntes só encolhe. Em março, segundo projeção do mercado, não será diferente. As apostas são de que essa conta fique no vermelho em US$ 5,5 bilhões - o menor déficit para março desde 2012. Até o fim do ano, a tendência é de que a redução do buraco nas transações correntes se mantenha. Solange Srour, por exemplo, estima que essa conta encolha US$ 20 bilhões, passando de US$ 91,3 bilhões, em 2014, para US$ 71,2 bilhões, este ano.

Algo parecido é imaginado para a inflação. Analistas de bancos e corretoras estão convencidos de que a alta de 8,13% do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrado em março tratou-se de um pico. A partir de abril, a trajetória da carestia será de quedas tanto mensais, quanto no acumulado em 12 meses. Não por outro motivo, após 14 semanas consecutivas em alta, os analistas ouvidos pelo BC na pesquisa Focus passaram a ver uma inflação menor em 2015. Ao mesmo tempo, cresceram as apostas de que o IPCA de 2016 talvez possa ser menor do que o inicialmente esperado.

Comportamento de preços livres melhoram expectativa

Um estudo elaborado pelo professor de Finanças Alexandre Cabral, a pedido do Brasil Econômico, dá pistas do porquê da melhora nas expectativas de inflação pelo mercado financeiro. Ele calculou as variações dos preços livres e administrados ao longo do tempo e concluiu que boa parte dessa pressão recente sobre o IPCA vem da maior correção nos itens monitorados pelo governo. Esse grupo de despesas subiu em 10 dos últimos 12 meses; enquanto isso, os preços livres ficaram mais caros em apenas seis meses, no mesmo período. “É uma situação bem diferente do que vínhamos vendo no passado recente. Em 2013, por exemplo, a inflação de administrados recuou em nove de 12 meses. Agora é justamente o contrário", diz.

A correção nos preços desses itens deixa clara uma mudança de postura do governo, assinala o economista-chefe da Franklin Templeton Investments, Carlos Thadeu Filho. “A presidenta Dilma tinha duas opções: manter a economia no curso que estava, que não havia dado resultado, e recorrer a mais medidas populistas; ou mudar radicalmente o rumo da política econômica para um governo mais ortodoxo, na linha do que deveria realmente ser feito”, diz. “Felizmente, ela não optou pelo populismo extremo. Na verdade, até optou pela perda da popularidade, encarando de frente os evidentes riscos políticos do ajuste. Mas foi uma decisão acertada, porque, enfim, a economia agora começa a seguir na direção correta”.

Os números dão razão ao analista. Se, durante os últimos quatro anos, medidas como o ajuste fiscal das contas públicas, o maior rigor da política monetária ou a correção dos preços administrados foram evitadas a todo custo, de modo a tentar dar impulso ao crescimento, via aumento do consumo, agora, a situação é justamente o contrário disso. Por mais que o governo enfrente problemas para aprovar o ajuste fiscal no Congresso, poucos são os analistas do mercado financeiro que duvidam da seriedade com que a nova equipe econômica perseguirá o compromisso de economizar 1,2% do PIB. “Atingir a meta fiscal depende mais da habilidade do ministro Joaquim Levy em cortar despesas do Executivo do que da articulação política do governo com o Congresso”, diz Thadeu Filho.

Por ora, o governo já anunciou o bloqueio de um terço dos gastos de custeio, congelando pagamentos de despesas administrativas como locação de imóveis e veículos, compra de materiais de escritório, passagens e diárias de servidores, além de pagamentos de água, luz e telefone. Outra medida adotada já nos primeiros dias de Levy à frente da Fazenda foi reduzir o empenho das dotações orçamentárias em apenas 1/18 avos, embora a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) autorizasse o Executivo a gastar até 1/12 avos. Nos próximos dias, a junta orçamentária, formada por Levy e os ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, do Planejamento, Nelson Barbosa, além do secretário do Tesouro Nacional, Marcelo Barbosa Saintive, deverá anunciar um pesado contigenciamento nos gastos dos ministérios em 2015. Apesar de a meta fiscal ser de R$ 58 bilhões, o governo poderá ampliar o esforço para R$ 80 bilhões. Não por outro motivo, os analistas, em geral, apostam no cumprimento da meta cheia este ano.

“Óbvio que ainda falta muito para o governo conseguir arrumar a casa, e isso vai depender muito se as próximas medidas lançadas pela equipe econômica terão ou não consistência”, comenta, enfático, Thadeu Filho, acrescentando que, por ora, o que fica é uma boa primeira impressão: “Falta muito, é verdade, mas a direção está certa”.

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