Por monica.lima

Levantamento do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) mostra que as empresas brasileiras usam hoje apenas 30% dos R$ 400 milhões disponíveis em linhas de financiamento para projetos de eficiência energética no país. As dificuldades de acesso aos recursos são tema do estudo “Destravando o financiamento à eficiência energética no Brasil”, que terá seu lançamento brasileiro, em evento sobre alternativas para melhorar o consumo energético em edificações, responsável por 35% a 40% da demanda mundial por eletricidade.

“O dinheiro existe, mas as empresas estão tendo muita dificuldade em acessar, diante de tantos entraves burocráticos. Algumas grandes empresas até conseguem financiamento, mas as pequenas, não”, diz a presidente do CEBDS, Marina Grossi. Uma primeira versão do estudo foi apresentada no final do ano passado no Peru, durante a Conferência do Clima de Lima. Hoje, a instituição promove um lançamento oficial no Brasil, com o objetivo de incentivar governo, empresas e instituições financeiras a debaterem alternativas para o problema.

A questão não se restringe ao Brasil, segundo diretor de Eficiência Energética em Construções do Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável (WBCSD), Roland Hunziker, que está no país para participar de um laboratório a respeito das barreiras a investimentos em eficiência energética em edifícios. “Não há falta de recursos. Mas é uma questão de prioridades e de como apresentar o projeto para o financiador. Há um problema de tradução da linguagem técnica para a linguagem bancária”, afirma.

“Quando o investidor vai apresentar um projeto de energia renovável, ele diz o quanto vai gerar, qual o custo e o preço de venda e, assim, calcula o retorno. Com eficiência energética é mais difícil: as economias têm que ser estimadas e essa tradução é um desafio”, explica Hunziker. O laboratório do Rio faz parte de um programa que inclui outras seis cidades no mundo, com o objetivo de fomentar o consumo eficiente de eletricidade em edificações.


Segundo ele, em exemplos bem-sucedidos no mundo, como as novas tecnologias desenvolvidas pela consultoria indiana Infosys — que substituiu o uso do ar condicionado por um sistema de resfriamento com água no teto de seus edifícios — a economia pode ser de até 50% nos gastos com eletricidade. Além de sistemas de refrigeração mais modernos, a tecnologia de eficiência energética em edifícios abrange o uso de diferentes tipos de vidro para evitar a passagem de calor e a pintura do teto com tintas reflexivas, entre outras soluções.

“O mundo está cada vez mais urbano e os edifícios são responsáveis por uma parte cada vez maior do consumo de energia”, comenta Marina. Ela e Hunziker concordam que são necessárias melhorias regulatórias para incentivar investimentos no setor e garantir escala para o desenvolvimento e produção de tecnologia. O presidente do WBCSD ressalta que, na Europa, os governos já determinaram metas de redução no consumo por edificações, como parte de seus programas de redução de emissões de gases do efeito estufa.

Marina acredita que o Brasil terá de adotar política semelhante em breve, se quiser cumprir as metas propostas para redução das emissões. “O nosso principal problema de emissões é o desmatamento, mas já estamos reduzindo e, em breve, haverá pouca gordura para queimar. Se não colocar a eficiência como meta, isso não vai acontecer”, diz ela. No final do ano, em Paris, o governo terá que confirmar suas metas de redução de emissões, que servirão de guia para a elaboração de um plano.

Estudo apresentado ontem pela doutora em em planejamento energético e professora da UFF Louise Lombardo mostra que, em 2010, o consumo médio de energia em edificações comerciais no Rio era de 40,11 quilowatts-hora (kWh) por metro quadrado por ano. Em edificações residenciais, o número pulava para 49,95 kWh — Hunziker considera que um prédio eficiente consome entre 15 e 30 kWh por metro quadrado.

“A questão da eficiência em edifícios residenciais tem sido um pouco negligenciada. Existe um regulamento técnico para a construção eficiente, mas não é obrigatório para residências. E aí, o custo do projeto fica em primeiro lugar”, comenta a especialista.

‘Este é o melhor momento para começar a agir’, diz o diretor de Eficiência Energética em Construções do WBCSD, Roland Hunziker

Qual a importância da eficiência energética em edifícios e qual o potencial de economia?

Eficiência energética é importante em termos de reduzir nossa dependência por energia, que está ficando cada vez mais escassa e tem uma contribuição significativa na questão das mudanças climáticas. Edifícios consomem muita energia, em torno de 35% a 40% do consumo global, e são responsáveis por cerca de 30% das emissões de gás carbônico. O que torna o tema um desafio e também uma oportunidade: a eficiência energética pode criar empregos e pode gerar novos negócios. Vemos que, em muitos países, a agenda de segurança energética cresce, mas ao mesmo tempo há uma série de barreiras.

Quais são as barreiras?

Quando olhamos simplesmente do ponto de vista da economia, é muito simples: se você usa menos energia, você economiza. Mas quando você percebe a necessidade de um investimento prévio, os benefícios não são tão claros. Primeiro, porque são difíceis de mensurar e, segundo, porque não dizem respeito apenas à pessoa que investe, mas também aos locatários ou ao dono de uma loja em shopping center. Este é apenas um exemplo de uma barreira. Mas há outros, como a cultura de energia abundante. E esse é um caso especial no Brasil. O acesso a financiamento é outra barreira importante.

O sr acredita que, com a crise energética dos últimos anos, este é o momento de deslanchar o tema aqui?

Acho que sim. Tem que ser. Porque não se pode ampliar o consumo de energia no mesmo modelo de antes. Então, vocês têm que mudar. Mas também é o momento ideal porque as pessoas começam a fazer perguntas: “como vamos resolver isso?” A gente veio aqui perguntar às pessoas se elas querem fazer um compromisso neste sentido. Juntamos um pequeno grupo, perguntamos se é a hora certa e eles disseram: “sim, devemos trabalhar em melhorar o entendimento sobre o tema e mostrar as soluções disponíveis para melhorar a eficiência energética”. Então, tem que ser a hora certa. E penso que as pessoas estão prontas.

Mas não vemos no governo um direcionamento neste sentido. O governo sempre fala na oferta e olha pouco para a demanda...

O foco na oferta é uma questão global. A maior parte dos governos olha a questão do ponto de vista da oferta, porque eles têm que entregar energia. E a eficiência costuma vir em segundo. Mas já é possível ver em outros países mecanismos para tornar a eficiência é mais barata do que ampliar a oferta. Ainda não vimos isso no Brasil, mas vimos aqui que o governo federal determinou um mandato para eficiência energética em prédios públicos, que têm que seguir o selo do Procel. Então, vemos que, em alguns passos, isso está indo na direção da eficiência. Concordo com você que o foco continua no lado da oferta, mas o que é importante é que estamos começando. Por isso, esse é o melhor momento para começar a agir.

Tarifas mais altas motivam a busca por maior eficiência?

Claro. Ouvi que, aqui no Brasil houve um aumento de 25% a 30% algumas semanas atrás. Isso, é claro, tem um lado positivo, pois faz o povo acordar: “Agora estou pagando 25% a mais. Há algo que eu possa fazer?”. Na Índia, por exemplo, a energia é muito cara e isso leva a indústria a economizar. A indústria do cimento na Índia é a mais eficiente do mundo. Em outros mercados, é o contrário. A Polônia, por exemplo, tem uma matriz baseada principalmente em carvão, que é uma energia barata. Então lá não há tanto incentivo.


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