Desinflação em 2016: mérito ao BC, mas com alto custo para o país

Queda da inflação, de 2015 para o próximo ano, pode ser a maior da história. Mas demissões e recessão preocupam

Por O Dia

Brasília - Comandante do Banco Central (BC) durante o primeiro mandato da presidenta Dilma Rousseff e com mandato até 2018, o economista gaúcho Alexandre Tombini está prestes a alcançar um feito histórico. Caso a inflação prevista para este ano caia de 8,39%, conforme prevê o Boletim Focus, para 5,5% ao fim de 2016, como estima o mercado financeiro, o Brasil voltaria a viver o que os economistas chamam de “desinflação”. Esse fenômeno, marcado pela queda do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de um ano para o outro, só ocorreu em sete ocasiões nos últimos 17 anos, período em que o país passou a adotar o sistema de metas para a inflação, vigente desde 1999.

Desde então, três presidentes do BC conseguiram realizar esse feito. Henrique Meirelles, que comandou a autoridade monetária entre 2003 e 2010, é quem ostenta a melhor marca. Já no segundo ano de seu mandato à frente do BC, o IPCA anual recuou de 9,3% para 7,6%, entre 2003 e 2004, resultando numa “desinflação” de 3,23 pontos percentuais. Depois de Meirelles, o comandante da política monetária a alcançar tal façanha foi Armínio Fraga. Também em seu segundo ano de mandato, que durou quatro anos, de 1999 a 2002, o BC conseguiu baixar o IPCA de 8,94% para 5,97%, em 2000: uma diferença de 2,97 pontos.

Tombini seria, por essa metodologia, o terceiro colocado nessa lista, algo que vem sendo comemorado nos bastidores do governo. Ao Brasil Econômico, uma fonte do BC citou as previsões do Focus, que apontam para a queda do IPCA de 2,89 pontos entre 2015 e 2016, como algo “impressionante”, e um feito para o qual o mercado financeiro não estaria dando “sua devida importância”. A mesma fonte reforçou que Tombini teria mais um trunfo a seu favor, o que poderia melhorar ainda mais o feito alcançado.

Pelas contas do BC, a queda da inflação entre 2015 e 2016 será ainda maior do que o previsto pelo mercado. A instituição crê que conseguirá derrubar o IPCA para 4,5%, o centro da meta de inflação, até dezembro de 2016. Caso consiga esse feito, a “desinflação” alcançada por Tombini seria de 3,89 pontos — desempenho ainda melhor do que o obtido por Meirelles, e um feito que daria ao economista gaúcho o pódio nesse ranking anti-inflação.

Mas, à parte do feito estatístico, poucos analistas têm visto com entusiasmo o comportamento recente da inflação. “Conseguir baixar o IPCA à custa de um forte arrocho na economia e no mercado de trabalho não deveria ser motivo de comemoração de jeito nenhum”, dispara o economista português Alberto Ramos, diretor de Pesquisas para América Latina do banco Goldman Sachs, em Nova York. “Infelizmente, o BC brasileiro só vai conseguir desinflacionar a economia pesando bastante a mão sobre os juros, o que será particularmente ruim para o país, num momento em que a atividade está bastante enfraquecida, o que certamente vai resultar em mais demissões e prejuízos para a indústria e o varejo”, enfatiza Ramos, acrescentando que a forte desaceleração da inflação, nessas circunstâncias, teria “pouco mérito” para o comando do BC.

Ex-professor no doutorado da presidenta Dilma Rousseff, o economista do Instituto de Economia (IE) da Unicamp Fernando Nogueira da Costa critica a recente decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de subir a taxa Selic em 0,5 ponto percentual, para 13,75% ao ano (maior patamar desde 2008) justamente, num momento em que o Produto Interno Bruto (PIB) está encolhendo e o mercado de trabalho dá sinais de desaceleração.

Para Nogueira da Costa, pior do que um custo de vida elevado é a perda do poder de compra do trabalhador. “Entre o desemprego e a inflação, todo trabalhador opta pelo menos prejudicial, que é perder um pouco de poder de compra, mas não todo o poder de compra”, assinala.

Avaliação diferente tem o economista-chefe do Banco Fibra, Cristiano Oliveira, que reforça que, após anos de descumprimento da meta de inflação, a sinalização de que o BC está, de fato, buscando atingir os 4,5%, é algo “positivo”, e atua favoravelmente para balizar as expectativas de inflação.

“O BC persegue o centro da meta de inflação. O objetivo explícito é fazer essa desaceleração. Se ela acontecer, podemos dizer que o BC foi bem sucedido. Ele tem uma meta e o BC está perseguindo-a. Mas há um custo em relação a isso”, diz Oliveira.

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