Por bruno.dutra

Rio - O comércio registrou em abril o pior mês em vendas dos últimos 12 anos, com queda de 3,5% no varejo restrito, na comparação com abril de 2014. No ampliado, a retração de 8,5% foi a mais intensa da série da Pesquisa Mensal de Comércio do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Dos dez segmentos analisados no varejo ampliado — que inclui materiais de construção e veículos, motos, partes e peças —, apenas dois mantiveram resultados positivos: materiais de informática e comunicação, com alta de 2,7%, frente a abril/2014, e artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos e de perfumaria, com forte expansão de 6,2%no mês e crescimento acumulado de 5,9% no período de janeiro a abril.

Uma inflação mais baixa e o caráter essencial dos produtos têm ajudado o comércio de medicamentos e itens de higiene e cuidados pessoais a manter o fôlego das vendas. No entanto, para especialistas, a alta do dólar e a incidência de IPI (Impostos sobre Produtos Industrializados) também sobre a comercialização dos artigos de higiene, perfumaria e cosméticos podem ser um obstáculo à sustentação desse crescimento.

“No ano passado, o setor farmacêutico e de perfumaria teve expansão de 9%, e este ano já está em 5,9%. Embora registre uma desaceleração, eles estão com ritmo bom e que se destaca da situação do comércio como um todo, que é de retração”, afirma o economista da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Fabio Bentes, que projeta um crescimento próximo dos 4,9% este ano para o segmento.

“Como não dependem do crédito e comercializam bens essenciais, o setor se mantém em termos de vendas. Mas algumas medidas podem sepultar esse fôlego, como o aumento de IPI, que passa a incidir na comercialização desses produtos, além do dólar mais caro. O que torna mais difícil manter essa inflação abaixo da média”, acrescenta Bentes.

Por meio do Decreto nº 8.393, o IPI sobre produtos de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos passa a incidir não apenas sobre a industrialização dos bens, como também sobre a distribuição, que inclui os custos indiretos de inserção do produto no mercado. Para a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec), a mudança elevará os preços dos artigos até 12% acima da inflação.

Em abril, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) dos medicamentos ficou em 6,27% no acumulado dos 12 meses, bem abaixo do índice geral, em 8,17%. Na mesma proporção, a inflação dos artigos de higiene pessoal cresce em ritmo menos intenso que o IPCA geral. Enquanto em maio, a inflação chegou aos 8,47%, os preços desses itens aumentaram 5,12%. Já os artigos de saúde e cuidados pessoais atingiu alta de 7,39% nos 12 meses em maio.

Além dos baixos preços, a menor elasticidade no consumo de bens essenciais, como medicamentos e artigos de higiene pessoal, é mais um fator que tem contribuído para que o comércio desses itens se mantenha firme, mesmo diante de um consumidor com menor poder de compra e mais cauteloso. Além da inflação em 8,47% — nos 12 meses até maio — ter corroído o orçamento, a aceleração do desemprego também mexe com as expectativas das famílias e com os salários, levando à retração do consumo. Em abril, a Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE revelou que o rendimento médio real habitual dos trabalhadores caiu 2,9% frente a abril de 2014, ficando em R$ 2.138,50.

“Nesses últimos 15 anos, observamos um processo de distribuição de renda com 30 milhões de pessoas indo para a as faixas de 4 a 6 salários mínimos, o que impactou positivamente o varejo. E o setor de artigos farmacêuticos e higiene pessoal cresceu nesta onda. Agora, esse segmento apresenta perda de aceleração, um espelho das mudanças no mercado consumidor, com forte restrição de renda e perspectiva de desemprego”, avalia o presidente do Instituto Brasileiro de Executivos do Varejo e Mercado de Consumo (Ibevar), Claudio Felisoni.

Para o executivo, embora tenham um perfil mais rígido sobre o orçamento do que os alimentos, os medicamentos e artigos de higiene pessoal também sofrem com a mudança de hábitos dos consumidores em momentos de crise. “O primeiro movimento é a redução da quantidade, o segundo é a troca da marca e, por fim, o cancelamento da compra. Apesar dos medicamentos serem essenciais à saúde e contarem com um forte teor de inflexibilidade, os consumidores consideram também o preço e a marca antes da compra”, salienta o executivo.

Não à toa que o mercado de medicamentos genéricos vem surfando nessa crise. Com preços menores do que os medicamentos de marca, o setor atingiu no 1º trimestre do ano crescimento de 12,6 % nas vendas em unidades, frente a igual período do ano passado. Ao todo, foram comercializados 227,3 milhões de medicamentos.

Os números são da Associação Brasileira das Indústrias de Medicamentos Genéricos, a PróGenéricos, feito a partir dos dados do varejo farmacêutico brasileiro auditados pelo IMS Health. De acordo com a entidade, o crescimento dos genéricos foi maior do que o registrado pelo mercado total, que engloba venda de todos os tipos de medicamentos, com 11% de evolução nas vendas em unidades e 15,2% em receita.

Ocrescimento no início do ano levou ao aumento da participação dos genéricos no mercado de medicamentos, que agora representam 28%, contra 27,5% registrado no mesmo período do ano passado. “ Os médicos têm receitado mais genéricos e o consumidor também está mais atento, não só ao preço, como também à qualidade e à segurança do medicamento genérico”, afirma a presidente da PróGenéricos, Telma Salles, que ressalta que há 16 anos o setor vem conquistando mercado e superando marcas de expansão.

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