Retração no lado da demanda puxa para baixo a inflação das férias

A crise econômica que se arrasta durante 2015 já impacta o turismo corporativo e de lazer, levando à contração nos preços

Por O Dia

Rio - As férias de inverno para os brasileiros que decidirem passear pelo país estão mais baratas. A contração na demanda por viagens corporativas e de lazer nos primeiros cinco meses do ano derrubou a inflação de itens do turismo, que devem manter a mesma tendência de crescimento moderado nos preços em junho e julho. Do lado dos empresários, a estratégia tem sido fazer promoções, facilitar os meios de pagamento, cortar custos e pesquisar alternativas que combinem bom preço e qualidade para atrair os clientes, mais cautelosos em fazer dívidas e gastos com itens supérfluos.

Muito além das passagens aéreas, cuja inflação no acumulado do ano retraiu 47,9% no período de janeiro a maio e 14,23% nos últimos 12 meses — segundo o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) — outros serviços ligados ao lazer e ao turismo também estão com altas menos intensas do que em 2013. A comparação não se faz diretamente com 2014 em função da Copa do Mundo, que provocou um aumento pontual e atípico na demanda e nos preços.

Em 2013, a hospedagem em hotéis registrara alta de 9,36% no acumulado dos 12 meses até maio. Hoje, está em 1,83%, em igual período de comparação. O mesmo movimento de desaceleração da inflação é observado nas excursões. Enquanto nos 12 meses até maio de 2013 o IPCA do item era de 9,69%, agora em 2015 está em 5,11%. Os preços dos ingressos para o cinema também têm aumentado menos do que no passado. A inflação que hoje está em 5,58% nos 12 meses até maio. Em 2013 estava em 10,72%.

“Embora os preços continuem subindo, o espaço para repassar custos diminuiu, apesar de terem crescido os gastos do empresário”, afirma o economista da RC Consultores, Marcel Caparoz. O analista avalia ainda que, embora seja provável que a inflação no meio do ano suba em função do efeito férias, “a magnitude dos reajustes tende a ser menor”. “O crescimento da inflação em itens de férias deve acontecer, mas não de forma tão intensa quanto em anos anteriores. Não que vá haver deflação em todos os itens, como nas passagens aéreas. A retração da demanda é tão forte que, de forma geral, inviabiliza repasses por parte dos empresários e, logo, grandes altas nos preços”, diz.

Sócia e gerente de um albergue na Zona Sul do Rio de Janeiro, Elizabeth Agra sente no bolso os efeitos da crise econômica. Há três anos, quando inaugurou o Hostel Contemporâneo, a empresária não esperava que o movimento despencasse tão fortemente quanto como nesse primeiro semestre. Segundo ela, tanto brasileiros quanto estrangeiros têm viajado menos. “Este é o pior primeiro semestre que enfrentamos nos últimos três anos. A queda na demanda veio logo depois da Copa, em setembro. Mas a redução no movimento se acentuou vertiginosamente nos últimos 3 meses”, conta Elizabeth.

Para atrair clientes, ela e os sócios reduziram em 20% os preços dos pacotes de hospedagem e passaram a aceitar o pagamento parcelado. Mas, segundo ela, foi inevitável a demissão de alguns funcionários: “A ocupação está baixíssima e já tem hostel fechando as portas. Quem pode está se segurando até dezembro à espera do Revéillon, Carnaval e Olimpíadas”.

Presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (Abih —Nacional), Enrico Fontes diz que, só neste ano, oito hotéis fecharam em Salvador, em função da queda da demanda. Segundo ele, há informações também de unidades encerrando as atividades em Porto Alegre e Curitiba.

“O quadro está preocupante. O que se pensa por último no país é viajar. Em janeiro, fevereiro e março o movimento nos destinos turísticos se manteve bom, porque as pessoas compraram antecipadamente. No entanto, com o avanço do aperto econômico, os reflexos passaram a ser sentidos agora, no segundo trimestre”, conta o executivo, que projeta estagnação no faturamento do setor este ano. Em 2013 o crescimento havia sido de 12% e em 2014, de 6,5%.

Fontes acrescenta que a desvalorização de 37,6% do real frente ao dólar, nos últimos 12 meses, não contribuiu para impulsionar o turismo doméstico. “O dólar mexe mais com a decisão de viagem das classes A e B, que termina por optar pelos destinos frios da América do Sul, aos Estados Unidos ou Europa”, observa.

Para as agências de viagem, a saída para a crise tem sido apostar na pesquisa de preços. “O agente de viagem tem ajustado os pacotes conforme o dia, destino, tempo de viagem e locais a se hospedar para conseguir fazer rodar uma economia de 20% ao cliente”, afirma Leonel Rossi Junior, vice-presidente de Relações Internacionais da Associação Brasileira das Agências de Viagens (Abav). “Mas se a economia não melhorar até o fim do ano, vamos ter problemas”, salienta ele.

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