Bom desempenho nas exportações salva indústria de celulose

Desvalorização cambial garantiu aumento de rentabilidade, apesar dos custos. De janeiro a abril de 2015, produção cresceu 4,3%

Por O Dia

Rio - Em meio aos muitos resultados negativos que a indústria de transformação acumula ao longo de 2015, o setor de celulose se destaca com um raro desempenho. De janeiro a abril deste ano, a produção totalizou 5,42 milhões de toneladas, alta de 4,3% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo dados da Indústria Brasileira de Árvores — IBÁ. Por trás do bom desempenho da indústria de celulose está a desvalorização cambial, que impulsionou as exportações, levando a um crescimento de 12,7% no volume vendido no mercado externo, totalizando 3,66 milhões de toneladas.

Estudo exclusivo feito pela Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), a pedido do Brasil Econômico, revela que a desvalorização cambial de 38% no período de maio de 2014 a maio deste ano garantiu ao setor de celulose, papel e produtos de papel uma rentabilidade de 16%.

“É um dos poucos setores com rentabilidade expressiva, no qual o câmbio está compensando os efeitos negativos do aumento dos custos de produção, especialmente com folha salarial e energia, e a queda no preço internacional”, avalia a economista da Funcex, Daiane Santos.
No período, o setor registrou um aumento de 11% nos custos de produção e uma queda de 6% no preço do produto. “É uma raridade no momento, considerando que a queda no preço internacional do petróleo e do minério de ferro tem jogado para baixo a rentabilidade das indústrias ligadas a esses setores”, acrescenta Daiane.

“O ponto ruim é que não se sabe até quando a desvalorização cambial vai compensar o aumento nos custos de produção”, ressalta a economista.

Embora os dados da Funcex aglutinem os setores de celulose, papel e produtos de papel, os dados do IBÁ mostram que a desvalorização cambial vem impulsionando mais a produção de celulose, do que a de papel e produtos de papel. Isso acontece porque parte expressiva da produção de celulose (61%) é voltada para o mercado externo, enquanto apenas 19% do que é produzido de papel é exportado — segundo dados de 2012 da Associação Brasileira de Celulose e Papel (Bracelpa, instituição que integra a IBÁ).

De acordo com o balanço setorial, nos quatro primeiros meses do ano, a produção de papel caiu 2%, ao atingir 3,387 milhões de toneladas, enquanto em igual período de 2014 o volume havia sido de 3,456 milhões de toneladas. A queda na produção está diretamente ligada ao recuo de 5,6% na demanda doméstica no período.

As vendas para o mercado interno, que em 2014 atingiram 1,827 milhões de toneladas, caíram para 1,725 milhões de toneladas. Já as exportações de papel retraíram 0,5%, atingindo 639 mil toneladas, ante 642 mil toneladas.

“O papel é um segmento que vem desacelerando bastante, em função da queda na produção de produtos de gráfica, como revistas, jornais e livros, que acumulam retração no volume de vendas de 8% no ano, até abril, segundo dados da Pesquisa Mensal do Comércio do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)”, afirma a economista do Bradesco, Regina Helena Couto da Silva.

Especialista na área, Regina salienta que parte do forte crescimento da produção de celulose está ligada também aos investimentos do setor, com a construção de novas unidades fabris. Segundo estudo do Departamento Econômico do Bradesco, o eucalipto ocupou 5,47 milhões de hectares em 2013, o que representa crescimento de 3,2% sobre o ano anterior.

Com a ampliação da área plantada, a oferta nacional de celulose de fibra curta (usada para fabricação de papel tissue e de escrever e imprimir) cresceu 10,2% em 2014, compatível com ampliação de capacidade produtiva proporcionada pelas novas fábricas. “É o único setor investindo atualmente e de olho nas exportações. A fábrica Eldorado, no Mato Grosso do Sul, do Grupo JBS, é um dos exemplos. Há também novas plantas no Piauí e no Maranhão”, destaca Regina.

Segundo a especialista, a projeção para o ano é a de que a produção de papel continue fraca, em função da baixa demanda interna. Já a celulose deve ganhar ainda mais com as exportações. “O Brasil é superior na produção de eucalipto em função do clima, do tipo de terra e do melhoramento genético realizado nos últimos 15 anos. Fora isso, o setor se beneficia do câmbio, tornando-se altamente competitivo”, acrescenta.

De janeiro a abril deste ano, 41% das exportações de celulose tiveram como destino os países da Europa, 32% a China, 15,7% a América do Norte e 7,9% a Ásia.

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