Por monica.lima

Brasília - A redução do limite de tolerância da meta de inflação, que a partir de 2017 cairá de 6,5% para 6% ao ano, é o primeiro passo para que o Brasil ingresse no seleto grupo de países que ostentam índices de preços baixos e estáveis durante um longo período de tempo. A avaliação de economistas ouvidos pelo Brasil Econômico é que, embora o centro da meta de inflação ainda tenha sido mantido em 4,5% ano — patamar considerado bastante elevado por especialistas —, a decisão do Conselho Monetário Nacional (CMN) de reduzir de 2 pontos para 1,5 ponto percentual o intervalo da meta de inflação deverá auxiliar o Banco Central (BC) a perseguir um custo de vida mais próximo do que é praticado em países emergentes e pelo conjunto de economias vizinhas do Brasil na América Latina.

Levantamento com base em dados do Banco Mundial mostra que, quando o quesito é preços altos, o Brasil só perde para a Índia e para a Turquia, em um ranking que reúne 15 das principais economias, além da zona do euro. Ao se levar em conta a meta oficial de inflação e abrangência da banda de tolerância para a variação dos preços ao consumidor, o desempenho brasileiro é ainda mais baixo que o da maioria dos países da América Latina.

Enquanto o BC comandado por Alexandre Tombini é obrigado a entregar uma inflação de 4,5% ao ano, com tolerância de dois pontos para cima ou para baixo, em países como México, Chile e Colômbia o alvo é uma carestia de apenas 3% — e a banda é de apenas 1 ponto percentual.

A comparação é ainda mais desfavorável ao Brasil se o quesito a ser observado for o resultado alcançado por cada país para a inflação, e não apenas a meta e a banda de tolerância. Desde que Tombini assumiu o comando da política monetária, em janeiro de 2011, o menor patamar que ele conseguiu entregar para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) foi 4,92%, alcançado em julho de 2012. “Se a gente pegar os quatro primeiros anos dele, a média de inflação ficou em 6,2% ao ano. Isso para não citar o ano de 2015, que tem sido devastador no quesito descontrole inflacionário”, dispara o economista-chefe Austin Rating, Alex Agostini.

Nas contas do próprio BC, a possibilidade de o IPCA romper o teto da meta este ano é de 99%. “O 1% restante é meramente estatístico, uma vez que a própria autoridade monetária prevê que, até dezembro, os preços caminhem para 9% ao ano, o que é exatamente o dobro da meta oficial de inflação”, constata o economista do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) Marcel Balaciano, da Fundação Getulio Vargas (FGV). Ele recorda que, por mais que o resultado alcançado por Tombini tenha ficado aquém do ideal, a maior tolerância com os preços altos no Brasil não vem de agora. “A última vez que o IPCA ficou no centro da meta foi em 2009, ano em que, não por acaso, o PIB (Produto Interno Bruto) encolheu e a economia entrou em recessão”, reitera Balaciano.

Para vencer o passado de pouco comprometimento com as metas, o governo decidiu agir em três frentes. A política fiscal, que fora expansionista sob o comando do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, está passando por um forte arrocho com o novo titular da pasta, Joaquim Levy.

A política monetária, que já vem sendo reajustada desde outubro de 2014 — três dias após o segundo turno das eleições presidenciais — deve continuar ladeira acima pelo menos até setembro, conforme prevê o economista-chefe do BNP Paribas para a América Latina, Marcelo Carvalho. Ele prevê que o Comitê de Política Monetária (Copom) vote por mais dois aumentos. “Seriam 0,5 ponto em julho e um derradeiro de 0,25 ponto, dois meses depois”, aposta.

O terceiro elemento dessa estratégia de combate aos preços altos foi a decisão, divulgada na noite de quinta-feira, de reduzir o teto da meta de inflação para 6%. O limite anterior, de 6,5%, já vigorava no país desde 2006, e ainda permanecerá por mais um ano, até o fim de 2016. Até lá, o BC espera conseguir derrubar o IPCA para 4,5%, como vem reforçando sua comunicação oficial. Mas, sem ainda conseguir convencer o mercado de tal feito.

Prova disso é que o consenso das expectativas do boletim Focus dá como certo que a inflação caia ao centro da meta apenas em 2019. É para tentar antecipar esse processo que o governo decidiu reduzir a banda de tolerância da meta de inflação, acreditam economistas consultados. A partir daí, o BC tentará perseguir metas ainda mais ambiciosas, reforça Marcelo Carvalho. “A meta de inflação no Brasil é muito alta e a banda muito larga. A maioria dos países emergentes e mesmo os países aqui da região (da América Latina) têm meta de 3% e banda de 1 ponto. Por isso, a gente acha que, em algum momento, teremos que falar em uma banda ainda mais estreita, de 1 ponto, e inflação menor, de 4% ou menos que isso”, frisa.

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