Por bruno.dutra

Rio - Pelo segundo mês seguido, o Índice de Preços ao Produtor (IPP) das indústrias de transformação, calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), perdeu fôlego, registrando alta de apenas 0,15% em maio — patamar inferior ao identificado em abril, quando ficara em 0,34%. Nos 12 meses, no entanto, a inflação dos industrializados ainda se mostra resistente, em 6,10%. Para especialistas, apesar da retração na demanda, a alta do dólar e o encarecimento da energia elétrica têm elevado os custos da indústria, tornando difícil a tarefa de evitar os repasses para preços.

“Esta é uma inflação de custo e não de demanda. Reflexo da recomposição de tributos, custo com matéria-prima em dólar e gastos com energia e água”, observa o economista, Alex Agostini, da agência de risco Austin Rating.

Só a energia elétrica aumentou 58,47% no acumulado dos 12 meses, até maio, de acordo com o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do IBGE. No mesmo período, a desvalorização do real frente ao dólar chegou a 42%. E foi no primeiro trimestre do ano que a moeda americana chegou ao pico de R$ 3,30, gerando impactos diretos sobre a inflação dos industrializados.

Enquanto em janeiro a variação mensal do IPP era de 0,02%, em fevereiro foi para 0,26% e em março avançou para 1,86%. “Como grande parte dos insumos industriais são importados ou tem preços medidos em dólar, a inflação em real é quase que instantânea. Logo, quando há uma variação forte na taxa de câmbio, o IPP acaba tendo uma volatilidade maior”, explica o economista da RC Consultores, Marcel Caparoz.

Para o consultor, o elevado patamar de 6,10% da inflação dos industrializados nos acumulado dos 12 meses tem relação direta com o resultado de março. “Este foi um ponto muito fora da curva, quando o câmbio chegou aos R$ 3,30. Esse resultado acaba puxando para cima a inflação dos 12 meses”, diz Marcel, acrescentando que o momento agora (maio) é de uma menor pressão do câmbio, o que gera uma inflação menor identificada pelo IPP.

O impacto do dólar sobre os preços dos industrializados é percebido de maneira mais forte nas atividades de outros equipamentos de transporte, que reúne a produção de aviões e motocicletas, e nos produtos de fumo. A inflação nesses grupos no acumulado dos 12 meses chegou a 26,61% e 24,52%, respectivamente.

Na ponta oposta estão os equipamentos de informática, com deflação de 3,29%, e coque, produtos derivados do petróleo e de biocombustíveis, com retração de 0,40%. Embora o dólar exerça influência sobre a inflação dos combustíveis, a queda internacional do preço do produto — de quase 50% nos últimos 12 meses — tem contribuído para manter o IPP em nível baixo.

Para os próximos meses, os analistas avaliam que a demanda fraca deve conter o repasse da alta dos custos para os preços, mantendo o IPP em patamar reduzido. A análise considera, até mesmo, a possibilidade de o dólar seguir em ritmo bastante volátil com a crise grega, o aumento dos juros nos Estados Unidos e as incertezas políticas no Brasil com os desdobramentos da Operação Lava Jato.

“A inflação que ainda persiste é reflexo de um ajuste na economia que vem ocorrendo, mas que tende a normalizar em nível abaixo de dois dígitos”, aponta Agostini, da Austin. O cenário econômico tem levado os empresários da indústria a um forte pessimismo. Sondagem da Fundação Getulio Vargas (FGV), divulgada ontem, mostrou que a confiança do setor chegou ao pior patamar dos últimos 10 anos, em 68,1 pontos.

“O resultado da pesquisa sinaliza que, entre março e junho, a indústria de transformação enfrentou mais um trimestre de queda da produção e de margens de lucro comprimidas”, diz Aloisio Campelo Jr., superintendente Adjunto para Ciclos Econômicos da FGV/Ibre. Também deprimida, a confiança dos empresários dos serviços registrou o pior nível dos últimos sete anos, em 80,7 pontos.

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