Por diana.dantas

O ano de 2014 vai reproduzir o abismo que já se observa desde alguns anos entre a evolução do comércio varejista e da produção industrial, o primeiro crescendo muito acima desta última. Embora as séries de vendas do varejo e produção da indústria não sejam precisamente comparáveis, era de se esperar que as trajetórias de uma e outra seguissem um padrão mais ou menos semelhante. Se não foi assim, especialmente na magnitude em que isso veio a se dar, é porque algo excepcional ocorreu.

No caso, o que entrou em cena foi uma combinação mortal de prolongada perda de competitividade da produção interna, capitaneada por uma longa e profunda valorização do real, com uma concorrência muito mais acirrada por mercados dinâmicos (como era o mercado brasileiro) após a crise global, que resultou no encolhimento dos principais mercados de produtos industriais ao redor do mundo. Por isso, embora o mercado consumidor brasileiro continuasse em crescimento elevado até 2013, em parte porque o governo adotou medidas de incentivo ao consumo e financiamento de bens duráveis, a indústria não se mostrou capaz de acompanhar o ritmo da evolução do consumo, cedendo parcela do mercado às importações.

Os índices de crescimento das vendas reais do varejo (representando o dinamismo do mercado consumidor interno de bens) e da produção industrial (representado o atendimento do consumo pela produção doméstica) assim variaram nos quatro últimos anos. Em 2011: 6,7% (varejo) e 0,4% (indústria); 2012: 8,4% e -2,3%; 2013: 4,3% e 2,2%; 2014 (até novembro): 2,4% e -3,2%. No período como um todo de crise industrial, o varejo cresceu em volume 23,5%, o correspondente a 5,5% ao ano — nada mal. Mas, a indústria praticamente não saiu do lugar. Na verdade, amargou queda de 3% (ou quase 1% a cada ano em média). Fica a lição: o mercado interno pode ser pujante, fruto ou não de incentivos, mas se a indústria não tem capacidade de competir com o produto importado, uma parcela desse dinamismo vai embora, o que deprime o crescimento doméstico.

O aumento das vendas do varejo em 2014 (com dados até novembro) mostra uma concentração muito grande em alguns poucos segmentos. O índice de 2,4% do chamado varejo restrito (não incluindo Veículos, Motos, Partes e Peças e Material de Construção) teve a liderança de Outros artigos de uso pessoal e doméstico (7,8%), onde o destaque é o segmento de lojas de departamento, e Artigos farmacêuticos, de perfumaria e cosméticos (9,1%), este um segmento que vem de uma longa sequência de excepcional desempenho, pois cresce pelo menos 9% desde 2007 em decorrência do mercado adicional criado pela redistribuição da renda.

Fora esses, alguns outros importantes segmentos acusaram flagrante perda de ritmo devido ao quadro de estagnação da economia e desaceleração do aumento do emprego e da renda da população, como nos casos de Hipermercados, supermercados, produtos alimentícios e bebidas (1,6%) e Móveis e eletrodomésticos (1,1%), além de Combustíveis e lubrificantes (2,7%).
Mais graves foram os casos dos ramos de Livros, jornais, revistas e papelaria, Equipamentos e materiais para escritório, informática e comunicação e, considerando o comércio varejista ampliado, os segmentos de Material de construção e de Veículos, motos, partes e peças, todos com taxas negativas de variação das vendas reais, especialmente nesse último caso onde a retração alcançou 9,5%.

Após um decênio de grande boom de crescimento, o varejo brasileiro fazia nos últimos anos um “pouso suave”, desacelerando gradativamente suas taxas de crescimento, um processo que permitiu que as empresas do setor refluíssem seus planos de investimento, porém sem gerar desemprego e problemas de desajuste financeiro empresarial. Nesse percurso, nenhum de seus segmentos entrou na faixa de decréscimo de vendas.

O ano de 2014 rompe com essa trajetória por indicar que a maioria dos segmentos varejistas já opera com declínio de vendas. Para 2015, o quadro macroeconômico e o ajuste fiscal prometido pela política econômica não autorizam senão uma evolução real muito baixa e próxima a zero, ou talvez até mesmo negativa, algo que desde 2003 não ocorre no varejo brasileiro.

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