Por douglas.nunes

Ao traçar seus cenários para 2015, a professora Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), não leva em consideração candidatos, mas políticas necessárias e possíveis. Por classificar a política fiscal uma variável essencial para o crescimento futuro, Silvia desenhou dois cenários: um que prevê a manutenção do status quo fiscal — que perpetuaria a baixa confiança nas contas públicas — e outro que prevê um superávit primário (a geração de uma economia de recursos, a partir de gastos menores que as receitas destinadas a cobrir os gastos com os juros da dívida) equivalente a 1,4% do Produto Interno Bruto (PIB) no setor público. Para ela, a manutenção do status quo fiscal conduziria o país ao baixo crescimento, ou mesmo à recessão. “Não consigo imaginar como será o Brasil em 2015 sem um ajuste fiscal crível logo no início do ano. Seria o mesmo que deixar o Banco Central sozinho fazendo o trabalho de combate à inflação com juros altos, o que é ineficiente”, diz ela. “O ajuste tem que ser feito, não importa quem ganhe as eleições”, completa.

Visto por fora, o superávit fiscal projetado pela pesquisadora para 2014 parece até moderado, já que o governo promete 2% do PIB para o período. Mas há uma grande diferença na sua composição: dos 1,4% estimados, 1,1% seriam compostos de receitas recorrentes. Ou seja, receitas permanentes, rotineiras, garantidas e, portanto, capazes de reforçar a confiança dos agentes econômicos na política fiscal. Pelas contas da economista, neste ano, o governo fará um superávit de 1,1% do PIB (abaixo dos 1,6% prometidos), sendo que 80% dele (0,9% do PIB) serão compostos de receitas extraordinárias, originadas, por exemplo, do Refis da Crise, da antecipação de dividendos e das receitas com leilões de concessões. “1,4% do PIB com 1,1% de receitas recorrentes é o superávit possível. Mas já seria uma boa sinalização para as agências de risco”, diz Silvia Matos. Com este cenário, a área fiscal estaria contribuindo para o combate à inflação, aliviando o peso sobre a política monetária. Além de mais qualidade na composição do superávit, a professora da FGV afirma que a redução das políticas parafiscais — por exemplo, os empréstimos do Tesouro Nacional ao BNDES — é imperativa, pela piora que elas causam na evolução da dívida pública e na credibilidade do ajuste fiscal.

Tudo somado, a taxa de crescimento resultante seria 1,2% do PIB. Nada brilhante, mas com perspectivas de expansão maior no médio prazo. “O superávit de 1,4% não seria suficiente para estabilizar a dívida pública, mas a sinalização seria positiva, melhorando o ambiente para um crescimento maior à frente e a produção de superávits fiscais mais elevados”, diz a professora.

Já a consultoria Tendências definiu seus cenários para 2015 a partir do contexto econômico esperado para cada um dos candidatos. Crítica da política fiscal do atual governo, a Tendências avalia que no caso da vitória de Dilma Rousseff (PT) as mudanças na economia seriam menos profundas e mais graduais: a economia nas contas públicas equivalente a 2% do PIB ainda seria fortemente composta por receitas extraordinárias e os preços administrados permaneceriam contidos para compensar uma maior desvalorização cambial. O resultado seria um crescimento do PIB de 1% em 2015. Aécio Neves (PSDB) é visto como o mais disposto a fazer um ajuste profundo, levando a 2,2% do PIB a economia nas contas públicas. O aperto, combinado com o ajuste dos preços administrados, levaria a uma inflação de 6,7% (acima da meta, de 6,5%), mas a recuperação econômica seria mais rápida, abrindo espaço para um crescimento de 1,6% em 2015.

Marina Silva é a única que conta com três cenários: um otimista, que resultaria em 2% de crescimento; um básico (com 1,2% de expansão do PIB); e um pessimista (0,4% do PIB). “Uma dúvida importante que prevalece em relação a Marina está em sua capacidade de formar uma coalizão no Congresso e aprovar as reformas necessárias”, explica a economista Alessandra Ribeiro.

O cenário otimista prevê uma ampla base de apoio, que levaria a candidata a obter a aprovação de mudanças tributárias e trabalhistas e à obstrução de pautas-bomba. O cenário básico prevê uma base suficiente para passar reformas parcialmente. E, no pessimista, ela governaria com minoria no Congresso. Além de não passar reformas, seria derrotada em contrarreformas.

Efeito eleitoral contido

Alguns especialistas que observam de perto o mercado de câmbio já enxergam o real oscilando de forma um pouco mais alinhada a outras moedas do mundo. Depois que o Banco Central indicou que rolaria 100% dos contratos de swap cambial (uma espécie de venda futura de dólar) que vencerão no início de outubro, uma parte da volatilidade parece ter sido reduzida — aquela ligada ao cenário eleitoral doméstico, polarizado e indefinido. Outros dois aspectos que levam o câmbio brasileiro a uma taquicardia mais acentuada que os de outros países em momentos de incerteza global são mais difíceis de contornar: a grande liberdade dada pelas regras brasileiras às entradas e saídas de capital; e o vai-e-vem de dólares guiados apenas pelo lucro com os juros altos.

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