Sem arrocho, meta fica distante

Postura fiscal contracionista vai colaborar para levar a inflação ao centro da meta

Por O Dia

O economista-chefe da consultoria LCA, Bráulio Borges, faz um exercício sobre a contribuição de uma política fiscal contracionista como força auxiliar no combate à inflação nos próximos anos. Ou seja, uma política fiscal que, ao arrecadar mais do que gasta, produzindo superávits relevantes, passa a ajudar a desaquecer a atividade econômica. “A postura algo contracionista da política fiscal em 2015 e 2016 é extremamente necessária para que a inflação caminhe para perto de 5% em 2016”, conclui o economista, após simular três cenários para a evolução fiscal, considerando as projeções de mercado para a taxa Selic, fixada pelo Banco Central.

No caso, o juro básico parte dos atuais 11,75% ao ano para 12,50% até meados de 2015 e volta a cair em 2016, fechando o ano em 11,25%. De acordo com o exercício de Bráulio Borges, se a política fiscal tiver efeito neutro sobre a economia, o IPCA fechará 2016 (prazo com o qual o BC trabalha para botar a inflação no centro da meta, de 4,5% ao ano) entre 5,5% e 5,8%, mais longe do que perto do objetivo. Já com um aperto crescente nas contas públicas — como promete o governo — a inflação oficial encerraria 2016 perto de 5,3%.

As simulações de Borges também desmistificam um pouco a contribuição que um aumento da Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), utilizada para corrigir os empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), pode dar para o combate à inflação. Ao incluir na simulação uma elevação progressiva da TJLP dos atuais 5% ao ano para 7% ao final de 2015, o IPCA recua, mas pouco. A inflação diminui porque, ao elevar a taxa, o Tesouro passa a colocar menos recursos baratos na economia por intermédio de seu banco de desenvolvimento e o custo dos empréstimos do banco se eleva. O estudo indica que as duas ações são importantes, mas o arrocho fiscal direto é mais eficiente.

O economista ressalta que o modelo não capta a contribuição do aumento da credibilidade da política econômica do governo, com potenciais efeitos positivos sobre as expectativas dos agentes econômicos. Se a credibilidade subir, ajudará a empurrar os preços para baixo. Bráulio Borges também tenta medir esse efeito agregando ao real uma desvalorização menor do que a esperada para o biênio 2015-2016. O reforço da credibilidade viria do progressivo sucesso do governo em executar suas promessas, fazendo, de fato a dívida pública parar de crescer. E seu efeito seria a manutenção do grau de investimento brasileiro pelas agências de rating. Hoje, o rebaixamento já está incorporado aos indicadores internacionais de risco. Na hipótese de manutenção do grau de investimento, na simulação de Borges, a cotação do real em relação ao dólar fecharia 2015 em torno de R$ 2,60 e, em 2016, próxima a R$ 2,70 — cerca de 10 centavos a menos que nos outros cenários. “Com essa evolução menos desfavorável da cotação cambial, o IPCA fecharia 2015 com alta de 6,1% (ante 6,5% no cenário de ajuste fiscal e aumento da TJLP), desacelerando para 4,9% em 2016 (ante 5,3%)”, aponta Borges.

Ou seja: um eventual ganho de credibilidade capaz de “desarmar” a expectativa de perda do grau de investimento aceleraria a convergência da inflação para o centro da meta, sem a necessidade de ajustes monetários ou fiscais adicionais, conclui ele.

O peso dos juros altos

“Final melancólico”. É como o economista Paulo Rabello de Castro qualifica o fim deste ano no mercado de emissões primárias de papéis privados. “Será o ano mais fraco desde o real”, afirma ele. No caso da emissão de ações em ofertas iniciais, uma apenas foi registrada em todo o ano. Para debêntures (títulos corporativos que rendem juros e podem ser convertidos em ações da empresa emissora), o volume foi 65% menor que o registrado em 2013. Em um contexto de juros elevados, que dificultam a atração de investidores para o mercado de capitais (a preferência pende para os títulos públicos federais), o economista é crítico. “Trata-se de uma política desenhada exclusivamente para viabilizar o financiamento do governo gastador e seus títulos, ao mesmo tempo em que comprime e até elimina o espaço para financiamento dos investimentos de consumo privados”, aponta. O futuro ministro da Fazenda, Joaquim Levy, tem destacado que entre suas prioridades está o desenvolvimento do mercado de capitais como alternativa de financiamento de longo prazo do setor produtivo. “Nada que a nova equipe econômica possa fazer”, sentencia Paulo Rabello de Casto.

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