Conversa de surdos

O episódio da última semana, quando o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, não compareceu ao anúncio dos cortes de gastos, é um exemplo de uma sequência de mensagens ambíguas dos últimos dias

Por O Dia

Por meio de um assessor, o ministro Levy mandou um recado objetivo ao mercado: salvo fato novo, que mude o cenário de forma radical, não pensa em demissão, não interrompeu sua rotina de trabalho, há muito a fazer ainda. Sua preocupação é decifrar os códigos políticos do governo do PT, para minimizar riscos de erros que minem seu alvo e compliquem o êxito de sua receita.

O vice-presidente%2C Michel Temer%2C disse que quanto mais o Congresso mexesse nas MPs%2C mais austeros seriam os cortes, o que acabou não ocorrendo. O governo cortou menos que o ministro Joaquim Levy recomendouReprodução

O episódio da semana passada, quando Levy não compareceu ao anúncio dos cortes de gastos por discordar do valor, é um exemplo de uma sequência de mensagens ambíguas dos últimos dias:

1. Ao amenizar o impacto de medidas provisórias, o Congresso transmitiu ao mercado a ideia de que a crise não é tão grave quanto o ministro diz que é. Além disso, o PT refugiou-se no discurso de que o trabalhador estava sendo excessivamente punido. Saiu vitorioso;

2. O coordenador político, vice-presidente Michel Temer, avisou que quanto mais o Congresso mexesse nas MPs, mais austeros seriam os cortes, para compensar eventuais perdas. O Congresso mexeu muito nas MPs e o governo cortou menos do que o ministro recomendou cortar;

3. Uma terceira falha na comunicação entre os integrantes do petit comité que de fato governa é o diagnóstico sobre o prazo de retomada do crescimento econômico. Levy e equipe acreditam que isso não ocorrerá antes do final de 2016, enquanto as pessoas influenciadas pelo ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, discordam. Levy teme ser responsabilizado por uma retração econômica superior a 1%, degrau de recessão considerado excessivo pelo grupo do Planalto.

Tiro ao distritão

Contrariando a tese de Michel Temer e de Eduardo Cunha, o vice-presidente do PMDB, Valdir Raupp, (PMDB-RO) pretende ir a fundo no combate ao chamado distritão na reforma política. O tema foi assunto de jantar que teve no domingo com o presidente do PT, Rui Falcão. Ele prefere o distrital misto e quer apoio do partido para sua proposta de financiamento de campanha: misto, mas com regras mais rígidas no limite a ser doado por empresas. Hoje, o encontro será com o cacique do PSD , ministro Gilberto Kassab.

Olho no Tombini

Todo o foco da curiosidade nacional vai mirar hoje o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini. Ele será o primeiro integrante do triunvirato econômico a ir ao Congresso (Senado) depois da divulgação do pacote. Cara de sorte, o Levy. Escapou de novo do bombardeio por uma razão diferente.

Freud explica

Os petistas estão preocupados com a falta de entusiasmo da militância com o 5º Congresso do partido, de 11 a 13 de junho, em Salvador. A aliança com o PMDB e o ajuste fiscal prometiam turbinar os debates. Nas votações do pacote fiscal, importantes lideranças petistas criticaram duramente as medidas, prometeram negar voto e assinaram um manifesto cobrando mudanças na economia. Mas nem mesmo a tentativa de contestar o domínio exercido pela tendência CNB (Construindo um Novo Brasil) tira o partido do divã.

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