Por bruno.dutra

Brasília - Enquanto oficializava Mangabeira Unger como novo ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos, ontem pela manhã, a presidenta Dilma Rousseff carregava sobre os ombros três pesos difíceis de sustentar: a oitava etapa da Operação Lava Jato, que acabava de ser deflagrada; a criação de uma nova Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a Petrobras; e a pressão do tempo para encontrar um substituto para Graça Foster na Petrobras.

Isso explica o aspecto visivelmente abatido da presidenta e o clima fúnebre da cerimônia, na qual não foi dado o direito a discurso para o ministro. A própria Dilma falou apenas dez minutos, cronometrados. Ao tratar das funções de Unger, ela lembrou que a principal delas é conectar as políticas de curto prazo às de longo prazo, deixando legados às futuras gerações. “Nós precisamos ligar todas as políticas de curto prazo a uma visão de longo prazo do nosso país, mesmo que o nosso governo tenha um término, claro, que é dezembro de 2018, é necessário quando se faz política pública diuturnamente, com as medidas que são necessárias para se ter efeito prático imediato, é necessário que se conceba também aquelas políticas que terão fôlego de longo prazo, que serão a herança e o legado que se deixa para as próximas gerações”, afirmou Dilma.

A presidenta também voltou a defender que os recursos oriundos do petróleo na camada do pré-sal sejam investidos em educação. Dilma disse, ao citar o lema escolhido para o seu segundo mandato, que “fazer do Brasil uma pátria educadora é investir muito na qualidade da nossa educação. É transformar o nosso passaporte do pré-sal em qualidade educacional”.

No mesmo instante em que Dilma discursava no Planalto, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, anunciava a criação da CPI da Petrobras. Os partidos definirão, até a próxima terça-feira, os integrantes da comissão, que será instalada depois do Carnaval. A CPI terá 26 membros titulares e 26 suplentes. O PT possivelmente não terá direito à presidência e nem mesmo à relatoria da comissão, segundo deu a entender o presidente Cunha. “O PMDB faz parte do maior bloco e é o maior partido do bloco, certamente caberá a ele o cargo que escolher na comissão”, disse Cunha. O líder do DEM, que também faz parte dos aliados de Cunha, disse que o partido também brigará pela presidência ou relatoria.

Integrantes do partido de Dilma no Planalto e na Câmara procuram demonstrar tranquilidade diante da criação da CPI e do mandado de condução coercitiva, que obrigou o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, a prestar depoimentos sobre pagamentos de propina com recursos da Petrobras ao Partido dos Trabalhadores.

O ministro das Relações Institucionais, Pepe Vargas, disse que o governo acompanhará com tranquilidade as investigações da comissão parlamentar, mas desqualificou o instituto da CPI que, para ele, perdeu a razão de ser, já que órgãos como o Ministério Público Federal e a Polícia Federal estão levando a cabo as investigações. “Sempre disse que as comissões parlamentares de inquérito, em função do novo protagonismo dos órgãos que combatem a corrupção, perderam aquele protagonismo que tinham no passado, até porque as regras agora são diferentes. Uma pessoa pode chegar lá para o depoimento, ficar calada e não acontece nada”, disse Vargas.

O vice-líder do PT na Câmara, Afonso Florence (BA), disse que a bancada ainda vai discutir qual será a sua presença na comissão, mas garantiu que não usará manobra alguma para atrapalhar as discussões. “A estratégia do PT é investigar, apurar os fatos. Não é inviabilizar ou suspender a investigação.”

No final do dia, sorridente, Dilma Rousseff recebeu Cunha e Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do Senado, no Palácio do Planalto. O “diálogo” entre os dois poderes foi o tema da conversa, assim como a negociação em torno de cargos e aprovação de matérias nas duas casas.

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