Por monica.lima
"João Santana não sinalizou até agora o que é que ele vai fazer. Continua um mistério a ser desvendado”, diz Maklouf sobre as eleições de 2018Murillo Constantino

Um dos homens mais próximos da presidenta Dilma Rousseff, o publicitário João Santana acaba de ser perfilado no livro “João Santana — um marqueteiro no poder”, do jornalista Luiz Maklouf Carvalho. Em entrevista ao Brasil Econômico, Maklouf revela as estratégias do responsável por eleger sete presidentes da República — “João acha que é uma falácia essa lógica de que, no jogo político, quem bate, perde” — e estima em R$ 180 milhões o valor que o marqueteiro político já faturou com as campanhas petistas.

É viável, hoje, uma eleição majoritária sem marqueteiro?

O marqueteiro passou a ser um personagem de referência nas campanhas políticas no mundo inteiro. Virou uma indústria em proeminência. No livro, vemos como João Santana e a cúpula do governo foram montando os momentos diferenciados e estratégicos da campanha. Ele é um marqueteiro, mas é também um conselheiro da presidenta, faz parte do chamado núcleo duro.

Há trabalho, então, mesmo fora das campanhas eleitorais?

Sim. É um trabalho permanente. Em quase todos esses programas lançados pelos governos de Lula e Dilma, como o Mais Médicos, por exemplo, tem o dedo do João. Ele passou a ser uma pessoa que a presidente chama para ouvir em momentos-chave, em períodos de crise.

Há uma linha tênue entre a propaganda política e a ideologia dos partidos. O marqueteiro desvirtua?

O trabalho do marqueteiro é eleger o candidato, vender o projeto de quem ele representa. Aí, entra a ética de cada marqueteiro. Acho que vale aí uma expressão que o Carlos Abramo usava: ‘Manter a ética do cidadão’. Não mentir, trabalhar com a verdade, informar corretamente.

A maioria dos marqueteiros tem essa preocupação com a ética?

A maioria tem, mas isso é uma opinião. Como a gente viu na campanha de 2014, a rigor trata-se de uma guerra política. Tivemos a caracterização de uma luta de classes, muito ideológica e polarizada. É claro que essa radicalização leva a cometer excessos, erros. Isso aconteceu de todos os lados. No livro, alguns entrevistados chamam João Santana de Anderson Silva, de Bruce Lee, outros de Sherazade, por saber construir a narrativa política e vender o peixe. Ele mesmo acha que, no jogo político, quem bate, ganha, e perde quem não sabe se defender. Ele diz que Aécio passou muito tempo reclamando e Marina, choramingando, foi pouco ofensiva.

Na sua visão, o que diferencia o João Santana de outros?

Objetivamente falando, ele se destaca porque foi quem ganhou as últimas eleições. Ele tem uma leitura muito consolidada, de autodidata, no marketing político. Apesar de ser formado em jornalismo, tem um background teórico, experiência, inclusive, a de ter perdido eleições. É um cara que fala sozinho, acorda na madrugada, vive o trabalho 24 horas por dia, chega a trabalhar com 600, 700 pessoas em determinadas campanhas, não gosta de ser contrariado e, às vezes, é grosseiro.

Ele é petista?

Acho que não. Ele é um livre pensador, já fez campanha para muitos candidatos não petistas e continua aberto a isso. Não o vejo como petista. É um cara à esquerda, sem dúvida alguma.

Mas fica marcada a associação dele com Lula, Dilma e PT. Talvez seja impensável que o PSDB o contrate algum dia...

São os clientes principais dele, inclusive do ponto de vista de um faturamento forte. Ao longo de todos esses anos com o PT, a empresa de João Santana recebeu uma soma que vai a R$ 180 milhões.

O que existe de João Santana na Dilma e o que seria da presidenta sem o trabalho dele?

Acredito que cada um tem suas ideias. Eles trocam experiências, ele dá sua opinião e acaba somando. Deve ter também muita confusão nesse meio. O João conta que sua relação com Dilma, quando ela ainda era ministra, começou com uma briga de quase sair tapa. Ele não gostou de uma coisa que ela disse, respondeu falando grosso. E o lado jagunço, como ele diz, foi aflorado. O negócio ficou difícil, mas depois eles conseguiram retomar. Pelos resultados que ele teve, foi uma composição que deu certo. Mas João não é intruso, é mais aquele cara que espera para ser convocado e dar a opinião.

O sr. acha que Santana e Lula já estão conversando sobre 2018?

Acho que sim. João Santana não sinalizou até agora o que é que ele vai fazer. Continua um mistério a ser desvendado. Evidentemente, esses assuntos mais relevantes são conversados. O tom da entrevista que ele me deu é muito pesado, ele desabafou, porque estava cansado de apanhar calado. Ficou difícil saber o que ele pretende depois disso.

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