Crise política atrapalha a reformulação no Banco Central

Em um mês o governo vai avaliar se as tensões no Congresso perderão força ou avançarão. Só então, o tema deve ir ao Senado

Por O Dia

Brasília - A crise política que se arrasta no Congresso e que levou o governo a derrotas por causa da revolta da base aliada está causando problemas até mesmo ao Banco Central (BC). A autoridade monetária precisa que o Senado aprove, o mais breve possível, a indicação de dois novos diretores que passarão a integrar o Comitê de Política Monetária (Copom). Acontece que, diante da crescente insatisfação da base com a articulação política do governo e da queda da popularidade da presidenta Dilma Rousseff, o Planalto avalia que são grandes as chances de os diretores terem o nome rejeitado pelo Congresso, como forma de retaliação ao governo.

O risco de derrota nessa questão foi considerado “elevado” por uma alta fonte da base aliada, que mencionou possíveis implicações de um fracasso na indicação dos novos diretores para o Copom, justamente num momento em que o BC está empenhado em convencer o mercado de que conseguirá derrubar a inflação para o centro da meta, de 4,5%, no fim de 2016. Por ora, os analistas estão descrentes nessa possibilidade, tanto que, pela terceira semana consecutiva, as projeções do boletim Focus para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) foram reajustadas para cima. Agora, a aposta dominante é que a carestia avance 5,61% ano que vem.

O BC contava que conseguiria coordenar melhor as expectativas de inflação ao fortalecer a comunicação com o mercado. Não por outro motivo, no início de fevereiro, o presidente da autoridade monetária, Alexandre Tombini, indicou a reformulação do Copom. Desde então, já se passaram 50 dias e a indicação dos novos diretores nem sequer entrou na pauta de votações da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE). Hoje, Tombini falará aos senadores da Comissão. A expectativa era que tocasse no assunto. Mas, diante da turbulência política que atingiu o governo nos últimos dias, a avaliação foi que o momento não seria adequado.

O Brasil Econômico apurou que uma nova tentativa será feita em um mês. Até lá, acredita o governo, será possível avaliar se as tensões políticas perderão força ou ganharão terreno, em função das manifestações populares que já começaram a ser convocadas para abril. Bancar a votação agora, dizem fontes, seria expor o Planalto e o próprio BC a um risco desnecessário, com consequências “indesejáveis”. “Eu já vi currículos serem derrubados apenas por encrenca política. Então, como o voto (na CAE) é secreto, se a gente não tomar cuidado, podemos ser surpreendidos com possíveis rejeições”, disse uma fonte governista, sob condição de anonimato.

O problema na demora em votar esses nomes é que o BC não tem tempo a perder. Com a saída de Carlos Hamilton Araújo da Diretoria de Política Econômica, e com a confirmação de que seu substituto, Luiz Awazu Pereira, deixará o governo em setembro, o BC precisa preencher os postos vagos. Entre as mudanças, a ida de Tony Volpon para a Diretoria de Assuntos Internacionais, também ocupada por Awazu, é considerada o trunfo para ajudar a melhorar a comunicação com o mercado.

Volpon abandonou o cargo de chefe de Pesquisas para Mercados Emergentes das Américas da Nomura Securities, em Nova York, sem saber se será ou não confirmado como diretor do BC. Situação um pouco mais tranquila vive o chefe de gabinete de Tombini, Octavio Ribeiro Damaso, que foi indicado para assumir a Diretoria de Regulação, atualmente comandada interinamente pelo diretor de Fiscalização, Anthero Meirelles. Com a demora na aprovação dos novos diretores, a situação no BC ficou delicada.

Atualmente, dois diretores ocupam quatro das principais diretorias do Copom, e, desses, um já avisou que está de malas prontas para deixar o governo. Em outubro, Awazu assumirá como vice-presidente do Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês).

Mesmo desfalcado, o Copom tem hoje o mesmo efetivo de 2012, quando o número de diretorias aumentou de sete para oito.

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