Joaquim Levy é solução e problema para o governo

Principal arma do governo para convencer o Congresso a aprovar o ajuste, ministro peca no tom de suas críticas. Aliados defendem que ele mude o estilo de se comunicar

Por O Dia

Brasília - “Queridinho” do mercado financeiro, homem-forte da economia e a única voz no governo Dilma Rousseff a alcançar relativo sucesso na negociação com o Congresso. São muitas as qualidades do ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Mas, se há um quesito em que o guardião do cofre federal tem sido pouco eficaz é na escolha das palavras para comentar políticas recentes do governo, ou a capacidade de ação da própria presidenta.

Desde que assumiu o cargo, não foram poucas as polêmicas em que o ministro se envolveu após declarações dadas em público. Em três meses, Joaquim Levy precisou se corrigir pelo menos cinco vezes, obrigando sua assessoria a enviar repetidas notas de esclarecimento à imprensa. A presidenta Dilma teve de sair em sua defesa após Levy ter declarado que a chefe do Executivo teria genuíno desejo de acertar as coisas, embora nem sempre da maneira “mais efetiva”, e dois de seus assessores especiais, responsáveis pela relação do ministro com a imprensa, pediram demissão na semana passada.

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Apenas uma dessas polêmicas tirou Dilma do sério. Em fevereiro, ao comentar a decisão de reverter a desoneração da folha de salários, ele proferiu a seguinte frase: “Essa brincadeira (desoneração) nos custa R$ 25 bilhões por ano, e vários estudos nos mostram que isso não tem protegido o emprego”, disse.

Ainda mais desastrosa do que a declaração em si foi o adjetivo usado para descrever a política, considerada o carro-chefe das medidas econômicas adotadas por Dilma no primeiro mandato: “grosseira”. Dilma reagiu e declarou que o ministro havia sido “infeliz” no comentário.

Corrigir essa postura será fundamental para a sobrevivência política de Levy, frisou um ministro ao Brasil Econômico. “Ele precisa recuperar rapidamente a capacidade de se comunicar bem com a sociedade sem criar atritos com o Planalto. A cada polêmica em que se mete, a situação de todo o governo fica mais difícil. Ele é a cara e a voz do ajuste fiscal. Então, comunicar-se bem será fundamental para atingir o sucesso nessa negociação com o Congresso”, disse o ministro, que pediu para não ser identificado.

Para aliados, curto-circuitos na relação entre o ministro e o Planalto expõem um dos maiores dilemas de Dilma neste segundo mandato: única esperança de ver aprovado o ajuste fiscal no Congresso, Levy tem sido, ao mesmo tempo, a solução e os problemas para o governo. Ao expor os erros da política econômica e apontar saídas, ganha pontos com parlamentares, inclusive da oposição, mas fragiliza a base de apoio de Dilma. Mais do que isso: as declarações de Levy, dizem aliados, dão munição a ataques ao governo.

Controlar o protagonismo de Levy, no entanto, não será fácil. Desde que assumiu a Fazenda, ele implementou mudanças radicais na estrutura interna. Se na época de Guido Mantega a pasta tinha pelo menos dois secretários com amplos poderes de decisão (Arno Augustin e Nelson Barbosa), os novos comandados de Levy têm perfil mais técnico e raras vezes falam com a imprensa. Uma fonte resumiu a situação: “O ministro gosta de fazer as coisas da maneira dele e não costuma buscar aconselhamento. Ele tem essa coisa de protagonismo, de ser a única fonte da Fazenda”.

O consenso de várias pessoas ouvidas pelo Brasil Econômico que trabalharam com Levy nas três passagens que teve pelo governo é de que ele é um economista de altíssimo conhecimento técnico, dotado de excelente poder de compreensão de assuntos diversos e com disposição de sobra para longas e exaustivas jornadas de trabalho, às vezes varando madrugadas, sem intervalo. Na época em que era secretário do Tesouro, confidenciaram ex-auxiliares, não raras vezes Levy dava expediente até 4h da madrugada. “Trabalhar até depois de meia-noite, para ele, é normal”, disse uma fonte da equipe econômica, sob condição de anonimato.

Nessas ocasiões exaustivas, apenas poucos secretários mais próximos a Levy o acompanham. “Mesmo hoje, ele continua com jornadas loucas”, confidenciou uma auxiliar, que acabou deixando o governo por não aguentar o ritmo de trabalho. “Foram longas jornadas de 12 horas ou mais diariamente, três meses trabalhando todo fim de semana, muito estresse. Quem sofre é quem está mais próximo dele: secretárias, motoristas, garçons, assessores e os próprios secretários”, resumiu.

A saída de dois de seus principais assessores, esta semana, ilustra a dificuldade do ministro em acatar opiniões divergentes. Ambos saíram porque se sentiam pouco ouvidos pelo ministro, disseram fontes consultadas.

Procurado, o ministro disse, por meio de sua assessoria, que não comentaria a matéria.

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