Por douglas.nunes

Com mais de 80% de aprovação, quando deixou o governo em 2011, o ex-presidente Lula hoje entra em campo em uma situação diferente. Nem o sindicalista dos anos 1970, o líder de oposição de 1980/1990 ou o presidente da primeira década deste século, nem o possível candidato do “volta Lula” do ano passado. Ele agora tem a missão de dialogar com políticos da base aliada, reconstruir pontes com os movimentos sociais e defender o atual governo e o legado de seus dois mandatos. Essa foram algumas de suas principais atividades divulgadas neste ano pelo instituto que leva seu nome.

A ação inclui não deixar acusações publicadas em veículos de comunicação, e mesmo boatos espalhados pelas redes sociais, sem resposta. Das acusações de lobby internacional, divulgadas na revista “Época” desta semana, aos ataques virtuais sobre uma falsa aposentadoria por invalidez, o ex-presidente e seus familiares têm se preocupado em dar esclarecimentos e, em alguns casos, inclusive buscar a via judicial. Para o cientista político Aldo Fornazieri, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, a preocupação é resultado do momento difícil vivido pelo governo da presidenta Dilma, pelo PT e por denúncias que envolvem também o mandato do ex-presidente. “Quando a maré era boa, havia menos preocupação com boatos descabidos. Agora a situação é diferente, existe uma atenção especial com qualquer potencial desgaste”, analisa.

Fornazieri lembra como exemplo a afirmação de que um dos filhos do ex-presidente seria sócio do grupo proprietário da Friboi.Além de acusações que citavam aviões e embarcações de luxo supostamente pertencentes à família do ex-presidente. “Quando o governo dele passa a ser investigado por assuntos que merecem atenção, como a situação da Petrobras, outras denúncias, mesmo que inventadas, passam a merecer uma atenção grande”, diz.
De acordo com o cientista político, a relação do presidente com sua sucessora é tensa, independentemente do aspecto pessoal. “É fruto de divergências na condução do governo, mas também do momento político. Mas não é uma relação que se rompeu”, diz. Um dos pontos decisivos para ele é o ajuste fiscal. “O ex-presidente Lula concorda com a necessidade, o que está em discussão é quem vai pagar a maior parte da conta”.

Para ele, o ex-presidente tem trabalhado para ajudar a sucessora. ‘Não há como dissociar a Dilma do Lula, foi ele que a escolheu. A situação atinge a imagem do partido, de ambos e até de pessoas de dentro do PT que nada tem a ver com isso, como o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad”, exemplifica. Fornazieri vê ganhos e perdas com a entrada de Lula mais ativamente no jogo político.

Secretário de imprensa no primeiro governo de Lula, o jornalista Ricardo Kotscho não foi condescendente ao analisar o momento do ex-presidente, de quem é amigo desde a década de 1970. Para ele, Lula nunca esteve tão isolado em sem discurso. “Lamento muito dizer, mas o discurso de Lula também não tem mais novidades, não aponta para o futuro. Tem sido muito repetitivo, raivoso, retroativo, sempre com os mesmos ataques à mídia e às elites, sem dar argumentos para seus amigos e eleitores poderem defendê-lo dos ataques”, escreveu em seu blog. Kotscho concordou com as críticas do ex-presidente “às elites e à grande imprensa”, mas lembra que o PT venceu quatro eleições seguidas, apesar da oposição desses grupos.

Ontem, o Instituto Lula divulgou uma nota em que rebate as acusações publicadas na revista “Época”, que ligam negócios da Odebrecht no exterior com uma suposta consultoria do presidente Lula. A revista tenta relacionar essa atuação com empréstimos feitos pelo BNDES. O Instituto banco nega a atuação do ex-presidente como lobista, rejeita a relação entre viagens e negócios da empresa no exterior e acusa a revista de criminalizar “financiamento à exportação de serviços” e “atividade diplomática”. Ontem, o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, reagiu dizendo que o banco estuda dar mais transparência aos empréstimos para empresas brasileiras que atuam fora do país.

Você pode gostar