Por monica.lima

São Paulo - Deputado federal eleito com mais de 1,5 milhão de votos no ano passado, o apresentador de TV Celso Russomanno (PRB) deve ser um dos percalços de petistas e tucanos na eleição municipal paulistana do ano que vem. Políticos de partidos rivais destacam que ele teve uma votação expressiva em algumas urnas na periferia da cidade, digna de um candidato de disputa majoritária.

A preocupação é maior para o prefeito Fernando Haddad (PT), candidato à reeleição. Além de Russomanno avançar sobre um eleitorado geralmente mais próximo do PT, o deputado tem centrado os seus ataques ao petista. Em 2012, o apresentador de TV liderou a disputa, segundo as pesquisas de intenção de votos, durante boa parte da campanha. Só foi superado por Haddad e pelo hoje senador José Serra (PSDB), derrotado pelo prefeito no segundo turno, na reta final da disputa.

Na época, a proposta de passar a cobrar a passagem de ônibus com base na quantidade de quilômetros rodados foi apontada como a principal razão da derrocada de sua campanha. Caso fosse colocada em prática, a medida prejudicaria principalmente os moradores das regiões periféricas da cidade, que gastariam muito mais em seus deslocamentos para as regiões onde estão concentrados os postos de trabalho. A ideia, que estava em seu plano de governo, foi usada pelos adversários para mostrar que Russomanno não estaria preparado para assumir o cargo.

Além do mandato em Brasília, onde também é líder do partido na Câmara, a principal arma de Russomanno é o seu quadro no “Programa da Tarde”, da Rede Record, emissora ligada à Igreja Universal do Reino de Deus, assim como o PRB, partido ao qual o parlamentar é filiado. O quadro “Patrulha do Consumidor” é exibido de segunda a sexta-feira.

No mês passado, o parlamentar usou seu espaço na TV para acusar Haddad de ter promovido a substituição de sacolas plásticas em supermercado para favorecer um de seus doadores de campanha. As novas sacolas, nas cores verde e cinza, são usadas para a reciclagem e tem resina de cana-de-açúcar em sua composição. A suposta beneficiada não consta entre as empresas que colaboraram com a campanha do petista e, assim como a Prefeitura, negou que o negócio a favoreça de alguma forma, pois compete com outras empresas nesse mercado.

Já apresentados por ele em outras emissoras, os programas de defesa do consumidor se tornaram o maior impulso para a carreira política de Russomanno, que já havia ocupado cargos públicos nos anos 80. Em 2014, o PRB elegeu também um deputado estadual em São Paulo, em dobradinha com ele, com o mesmo mote. Até o começo do ano, graças a um acordo com o governador Geraldo Alckmin (PSDB), o partido também controlava a direção da Fundação Procon, entidade do governo estadual responsável pelo atendimento ao consumidor.

Se é usada para fortalecer a sua imagem pessoal, a TV também é motivo de dores de cabeça, inclusive judiciais, para o apresentador. No mês passado, ele foi acusado, em reportagem publicada no portal UOL, de apresentar seu quadro supostamente ao vivo em um horário em que estava oficialmente em sessões ordinárias da Câmara. Geralmente, ele participa do programa a partir de um estúdio em Brasília, mas, segundo a reportagem, em pelo menos uma data, o parlamentar constava como presente a uma sessão no mesmo horário em que estava ao vivo no auditório da Record em São Paulo. O parlamentar alegou na época que grava as participações televisivas em seu “horário de almoço”.

Mas o maior problema relacionado aos programas de Russomanno na TV é uma condenação de primeira instância na Justiça Federal em Brasília, datada de fevereiro do ano passado, por peculato. A decisão judicial é anterior à eleição de Russomanno. Desde a posse, ele passou a ter foro especial. Segundo a decisão, ele teria contratado uma funcionária como secretária parlamentar entre 1997 e 2001, paga com recursos da Câmara dos Deputados, mas que na verdade trabalhava na produtora de Russomanno, onde era gerente administrativa. A investigação teve início em uma ação na Justiça do Trabalho e a decisão judicial tem como base diversos depoimentos de ex-funcionários da empresa. Parte da ação penal tramitou no Supremo por conta da época em que o apresentador de TV foi deputado em outros mandatos. Russomanno foi condenado a dois anos e dois meses de reclusão, pena substituída por outras, restritivas de direitos. Cabe recurso da decisão. Ontem, o deputado não foi encontrado para falar sobre o tema.

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