Por monica.lima

Antes de embarcar para os Estados Unidos em viagem oficial, a presidenta Dilma Rousseff não descartou a possibilidade de assinar um acordo comercial com aquele país. Em entrevista dada ao jornal “Washington Post” na quinta-feira (e publicada no dia seguinte), ela defendeu uma parceria na agenda de mudança climática e o estreitamento da relação entre os dois países nas áreas de ciência, tecnologia e inovação, além de uma cooperação na área de educação. A presidenta destacou o papel do Mercosul nas relações internacionais brasileiras, mas lembrou da necessidade de ter parcerias com diversos países.

Dilma afirmou na entrevista que o Brasil sempre vai desempenhar um papel ativo no continente africano, em razão da “dívida humana, social e cultural”" com a região, devido à escravidão. “52% dos brasileiros se declaram de origem negra. Somos o maior país negro fora da África. As nossas relações com a África são, em última instância, uma reabilitação da nossa história passada, considerando as práticas de escravidão que prevaleceram no nosso país desde o século 16. Este país viveu sob a escravidão até 1888, e deve superar a ferida histórica deixada pela escravidão”, disse.

A presidenta respondeu também sobre questões internas do Brasil, como a preocupação com o desemprego, o ajuste fiscal e a queda de sua popularidade. Ela destacou que o ajuste fiscal não é uma decisão do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, mas uma política de seu governo. “Estamos absolutamente certos de que é essencial colocar em prática todas as medidas necessárias, não importa quão duras elas sejam, para retomar as condições de crescimento no Brasil. Algumas medidas são fiscais, outras estruturais”, afirmou na entrevista.

Apesar de se declarar preocupada com o aumento do desemprego, a presidenta lembrou que os índices atuais, entre 6% e 7%, não podem ser considerados altos. “É claro que eu me preocupo com isso, me preocupei desde o primeiro dia. Houve um aumento do desemprego nos últimos dois meses. Mas, antes disso, já tínhamos criado 5,5 milhões de empregos. Queremos realizar um ajuste rápido porque queremos reduzir o efeito do desemprego “, afirmou.

A presidenta também afirmou estar atenta à queda na avaliação do seu governo, mas disse não “perder os cabelos com isso”. A última pesquisa do Datafolha registrou que apenas 10% dos eleitores classificavam o governo dela como bom ou ótimo. “Você tem que conviver com as críticas e com o preconceito. Eu não tenho qualquer problema em assumir: quando se comete um erro, deve-se mudar. Em qualquer atividade, incluindo o governo, você deve incessantemente fazer ajustes e mudanças. Se você não fizer, a realidade não vai esperar por você. O que muda é a realidade”, disse.

A presidenta afirmou que há preconceito de gênero em algumas críticas que são feitas a ela. “Alguma vez você já ouviu alguém dizer que um presidente do sexo masculino coloca o dedo em tudo? Eu nunca ouvi falar disso”, comparou. “Eu acredito que há um pouco de preconceito sexual, ou um viés de gênero. Sou descrita como uma mulher dura e forte que coloca o nariz em tudo e estou cercada de homens meigos”, comparou. Ela também afirmou que a corrupção nem sempre é visível e descartou o envolvimento do BNDES no escândalo da Petrobras.

A visita aos EUA começou ontem, com um encontro com empresários brasileiros em Nova York. Hoje, a presidenta se reúne com empresários do setores produtivo e financeiro e com o ex-secretário de Estado americano Henry Kissinger. À tarde, segue para Washington, onde o presidente Barack Obama oferece um jantar em sua homenagem. Amanhã, Dilma e Obama tem reunião de trabalho na Casa Branca. Na sexta-feira, Dilma recebeu telefonema do vice-presidente americano, Joe Biden, que transmitiu a “elevada expectativa” em relação à sua visita.

Em 2013, Dilma cancelou uma viagem ao país após a revelação de que havia sido espionada, junto a outras autoridades e empresas brasileiras, pela agência de inteligência dos EUA, a NSA.

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