Por diana.dantas
Publicado 05/11/2014 21:47 | Atualizado 06/11/2014 12:42

Os números ainda positivos do mercado de trabalho brasileiro têm evitado uma desaceleração mais forte do comércio em 2014. A despeito da queda na ocupação, os últimos números da Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do IBGE ainda são favoráveis, principalmente em razão da taxa de desemprego em níveis historicamente baixos. A taxa de desocupação de setembro (4,9% da População Economicamente Ativa, PEA) é a mais baixa para meses de setembro em toda a série histórica da PME. Ao longo de 2014, essa razão registrou pisos históricos nos nove meses do ano.

No emprego formal medido pelo Caged, cujo universo é mais abrangente do que o da PME, os números ainda são positivos, apesar da evidente desaceleração dos últimos meses. Nos últimos doze meses encerrados em setembro de 2014, o estoque de trabalhadores formais avançou 1,5%. Em 2011, por exemplo, o avanço foi de 5,5%. Nos anos que se seguiram, novas altas foram registradas (3,4% em 2012 e 2,8% em 2013).

Pelo lado do rendimento, tanto o IBGE, quanto o Caged, apontam para desacelerações nos comparativos anuais. A PME revela que o crescimento nominal do rendimento médio nos doze meses terminados em setembro de 2014 (8,3%) foi maiores que a variação observada um ano antes (7,7%). Porém, em termos reais, a inflação de 2014 vem corroendo mais fortemente os rendimentos do trabalho (1,5% no comparativo setembro de 2014/setembro de 2013, contra 2,2% de variação registrada um ano antes).

Igualmente, os dados da remuneração formal do Caged mostram clara tendência de desaceleração. Após oscilar, em termos reais, 3,2% em 2011, 4,0% em 2012, e 4,4% no ano passado, o salário médio de admissão variou 0,2% em setembro deste ano quando comparado com o mesmo mês de 2013.

Ainda que o mercado de trabalho venha dando claros sinais de desaceleração, esses dados ainda se mostram positivos para o comércio varejista brasileiro no sentido de que boa parte do crescimento do varejo nos últimos anos se deu lastreado no mercado de trabalho.

A mais do que comprovada relação renda vs consumo, quando aplicada aos dados da Pesquisa Mensal de Comércio (PMC) do IBGE e do mercado de trabalho no Brasil revela que para cada aumento de 1% na massa salarial, o volume de vendas do varejo expande-se em 0,4%. Ou seja, por mais que parte dos ganhos de renda “vazem” para despesas com serviços, alocações intertemporais de recursos e, residualmente, para a poupança do consumidor brasileiro, o desenvolvimento da atividade comercial depende fundamentalmente do mercado de trabalho do país.

Entre 2005 e 2012, as vendas do varejo cresceram a um ritmo médio próximo de 8% ao ano. Desde o ano passado, quando esfriou para 4,3%, no entanto, o varejo se recente de uma nova injeção no potencial de consumo. Ainda em 2012, quando o volume de vendas cresceu 8,4%, coube à redução do IPI a sustentação do nível de atividade do varejo. Não fosse o incentivo fiscal, ao invés de ter crescido 8,4%, as vendas do comércio não teriam ido além de 6,0%. No caso específico do comércio automotivo, a CNC estima que a alta de 7,3% sequer teria ocorrido.

Além dos impactos diretos do mercado de trabalho e do efeito preço pontuais de 2012, aqueles oito anos de forte expansão do varejo só foram possíveis em função do impulso dado pelo crédito ao consumidor, muito embora a elasticidade crédito-vendas seja metade da relação dessa segunda variável com o mercado de trabalho. Naquele período os recursos livres destinados às pessoas físicas acusaram avanço médio anual de quase 15% em termos reais.

O último ciclo de expansão do crédito se deu também ancorado no mercado de trabalho. Se as concessões totais de recursos destinados às pessoas físicas cresceram 15% reais ao ano, o crédito consignado avançou 20%. Por ser lastreada no mercado formal de trabalho, essa modalidade conta com a menor inadimplência média anual desde 2005 (2,6% da carteira) e, consequentemente com baixo custo para o tomador (25% ao ano), atrás apenas do crédito alienado para aquisição de veículos (23% ao ano). Dentro do crédito pessoal, sua participação passou de 40%, em 2005, para 62% ao final de 2013.

Para o restante de 2014, a expectativa é de que as vendas de final de ano cresçam 2,6% em relação ao Natal de 2013, ano em que a principal data comemorativa do varejo avançou 5,1%. Confirmada a previsão da CNC, este será o Natal mais magro desde 2003, quando houve queda de vendas. Notadamente, as vendas de final de ano se inserem no quadro de desaceleração do consumo no Brasil. Em todas as datas comemorativas de 2014, houve um ritmo menor de crescimento das vendas.

Pelo lado do emprego, a demanda sazonal de final de ano deverá proporcionar a abertura líquida de 138,4 mil postos de trabalho formal no varejo brasileiro entre os meses de setembro e novembro, 0,7% a mais do que no mesmo período do ano passado. Caberá ao emprego temporário de final de ano a reversão do atual déficit de vagas abertas pelo comércio varejista ao longo de 2014 (-4,2 mil vagas).

Por sua vez o nível de endividamento das famílias brasileiras apresentou queda em outubro de 2014 segundo a pesquisa (PEIC) da CNC. Houve não apenas diminuição da proporção de endividados, mas também melhora da percepção em relação ao endividamento, com menos famílias relatando estar muito endividadas. A cautela das famílias em relação ao consumo, observada nos índices de confiança e de intenção de consumo, adicionada à proximidade das festas de fim de ano, faz com que mais consumidores quitem suas dívidas. Entretanto, entre as famílias com dívidas, o comprometimento da renda com o pagamento destas aumentou, acompanhando o custo elevado do crédito.

Portanto, direta ou indiretamente, a variável condicionante mais importante para a determinação do nível de atividade do comércio é a combinação entre os níveis de emprego, renda e crédito.

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