O crédito e o freio no consumo

As taxas de juros deverão continuar pressionadas em 2015. O crédito continuará restrito até que o novo ciclo de baixa de taxas de juros comece, provavelmente em 2016

Por O Dia

Os dados das Contas Nacionais para o terceiro trimestre deste ano revelaram uma estagnação da demanda por consumo das famílias, contribuindo para o fraco resultado do Produto Interno Bruto (PIB) no período. O consumo das famílias recuou 0,3% em relação ao trimestre anterior e o resultado do PIB foi um crescimento de apenas 0,1%. Nos últimos quatro trimestres, a despesa de consumo das famílias continuou sendo a principal contribuição positiva para o crescimento do PIB, com expansão de 1,5%. Entretanto, foi o pior resultado desde 2004.

A desaceleração do consumo das famílias está relacionada ao comportamento do crédito às pessoas físicas, que manteve a trajetória de moderação em 2014. O crédito para as famílias está mais caro e escasso, e essas estão se mostrando mais cautelosas em relação ao consumo e ao endividamento. O saldo de crédito das famílias junto aos bancos apresentou, até outubro, um crescimento anual de 13,4% — significativamente abaixo da média histórica (a partir de 2007) de 19,5%. Adicionalmente, a maior parte do crescimento atual é proveniente de operações com crédito direcionado, a juros subsidiados, em particular o financiamento imobiliário.

Excluindo-se as operações do crédito direcionado, o saldo de operações de crédito com recursos livres junto ao Sistema Financeiro Nacional apresentou crescimento anual de 5,2% em termos nominais no mesmo período, o que representa um crescimento abaixo da inflação. Entre as operações com recursos livres, destacam-se, ao longo do ano, o crescimento de operações de curto prazo com cartão de crédito e cheque especial. As operações de prazo mais longo, entre elas crédito pessoal e aquisição de veículos, apresentaram recuo de 2,7%.

Acompanhando essa retração, o resultado das vendas do comércio varejista também foi mais modesto, sobretudo nos segmentos mais sensíveis ao crédito, que compreendem bens duráveis, automóveis e materiais de construção. O setor de móveis e eletrodomésticos, por exemplo, que havia apresentado crescimento real das vendas de 4,9% em 2013, acumula, nos últimos 12 meses até setembro, alta de apenas 2,0%. Diante desses dados, é notável o esgotamento dos efeitos do estímulo ao crédito na economia. A CNC estima que neste Natal — a data comemorativa mais importante para o comércio — o varejo terá um crescimento real de vendas ao redor de 2%, que representa o pior resultado desde 2003.

Não apenas a oferta de crédito está mais escassa, mas o consumidor também tem se mostrado mais cauteloso. O Índice de Intenção de Consumo das Famílias (ICF), divulgado mensalmente pela CNC, revela um menor otimismo do consumidor. Destaca-se no ICF, sobretudo, a piora na percepção do consumidor em relação ao crédito e à compra de bens duráveis. Em relação ao endividamento, também há uma redução no número de famílias com dívidas. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), também divulgada mensalmente pela CNC, mostra que o percentual de endividados alcançou 59,2% das famílias em novembro de 2014, ante 63,2% no mesmo período de 2013.

Com o crescimento mais moderado do crédito e a redução no número de famílias endividadas, melhorou a percepção das famílias em relação às suas dívidas. O percentual daquelas que relataram percepção de endividamento muito elevado recuou para o menor nível da pesquisa em novembro deste ano, alcançando 10,8% do total. O percentual de famílias que disseram não ter perspectivas de pagar suas contas em atraso e que, portanto, permaneceriam inadimplentes atingiu o segundo menor nível da série no mesmo período, alcançando 5,5% do total.

Entretanto, entre as famílias que têm dívidas cresceu o comprometimento da renda com o pagamento das prestações. As taxas de juros das operações de crédito com recursos livres acumulam alta de seis pontos percentuais no ano. Até o momento não se viram os reflexos desse aperto de crédito sobre a inadimplência. Ainda há crescimento real da massa de rendimentos, e o ritmo atual de crescimento do crédito está mais compatível com o crescimento da renda. Adicionalmente aumentou a participação do crédito consignado e do crédito imobiliário, melhorando o perfil de risco das dívidas das famílias.

Com o novo ciclo de aperto monetário iniciado em outubro e intensificado na semana passada, essa tendência de moderação do crédito deverá continuar. Nos últimos dez anos, o crédito ganhou grande importância na economia brasileira. O volume de crédito do Sistema Financeiro Nacional equivalia a apenas cerca de 25% do PIB em 2004. Hoje, a relação crédito/PIB alcança 57% e quase a metade desse montante foi destinado às famílias. Devido à prociclicidade do crédito, o aumento das taxas de juros, ao mesmo tempo em que há uma estagnação da atividade econômica, vai limitar o crescimento da demanda interna no próximo ano.

As taxas de juros deverão continuar pressionadas em 2015, principalmente pelo fato de que a inflação provavelmente poderá ser maior que a de 2014, em razão dos preços administrados e da valorização do dólar. O crédito continuará restrito até que o novo ciclo de baixa de taxas de juros comece, provavelmente em 2016. É fundamental que a política fiscal seja resgatada, apresentando um saldo primário de 1,2% do PIB, conforme prometido, para que as taxas de juros possam começar a apresentar tendência de queda. A continuidade de entrada de recursos externos poderá amenizar temporariamente as restrições de crédito, mas não será suficiente para diminuir seu custo. Enquanto não houver um horizonte temporal de expectativa de queda da taxa Selic, o crédito continuará curto e caro.

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