Inflação corretiva em 2015

O processo de redirecionamento das políticas públicas, mesmo que feito com parcimônia, terá um custo elevado, porém necessário para voltar ao crescimento sustentável em 2016

Por O Dia

O ano de 2015 deverá ser repleto de desafios de diferentes complexidades, que deverão ser intensificados pelas incertezas no cenário externo. Uma das questões nacionais mais importantes é a melhoria na política fiscal, principalmente na contenção dos gastos públicos e no reestabelecimento da credibilidade dos agentes na contabilidade governamental. A reconstrução da confiança é base importante para a aplicação dos outros ajustes pretendidos pela nova equipe econômica do governo.

Outra demanda pendente é o controle do nível de preços. O índice oficial de inflação, Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), quando medido em intervalos de 12 meses, está acima do centro da meta do governo, 4,5%, desde agosto de 2010, período em que registrou alta de 4,49%. O IPCA registrou alta de 0,78% em dezembro, fechando o ano em 6,41%, abaixo do teto estipulado no regime de metas de inflação (6,5%). No entanto, em seis das 13 regiões que integram o índice, o IPCA ficou acima da meta.

Nacionalmente, os grupos de alimentação e de habitação obtiveram os maiores impactos sobre o IPCA, com altas de 8% e 8,8%, contribuindo com 1,97 p.p. e 1,27 p.p., respectivamente. Ambos responderam pela metade da aceleração do índice no ano passado. Os preços administrados seguiram trajetória inversa, com alta de 5,3% contra 1,5% no ano anterior. Depois de uma política de redução de tarifas em 2013, que levou a uma queda de 15,6% do preço de energia elétrica, o item registrou alta de 17,0%, influenciando positivamente os preços monitorados.

Uma das maiores inquietações para o ano de 2015 é como serão os impactos dos reajustes desses preços monitorados no cenário macroeconômico. Há muitos anos o governo controla a evolução dos preços de combustíveis, energia elétrica e transportes, para evitar uma sobrecarga na inflação. No entanto, é necessário que esses preços sejam reajustados, para que reflitam a realidade de seus mercados, ou seja, que mostrem a relação verdadeira entre oferta e demanda. Além disso, a manutenção artificial desses preços gera custos para o governo, já que a diferença entre o preço em vigor e o preço que deveria ser praticado é subsidiada pela máquina pública. Essa realidade é incompatível com a necessidade de contenção fiscal para melhoria das contas públicas e da razão entre PIB e dívida pública. Portanto, é imprescindível a continuidade de ajustes nos monitorados. Adiar essas ações só aumenta a “inflação corretiva”, que será a base para recuperar o equilíbrio dos mercados.

O primeiro dos reajustes dos monitorados deve acontecer no preço da energia elétrica. É esperado um aumento de até 30% na tarifa.

A elevação no nível de preços no Brasil evoluiu contrariamente ao movimento dos preços em outras economias, principalmente nas avançadas. As maiores influências foram justamente o aumento dos gastos públicos.

O ajuste nos preços deverá provocar aumento da inflação, pelo menos no curto prazo. O desaquecimento do mercado de trabalho e consequentemente da demanda não deverá ser suficiente para conter essa alta. Além disso, há os possíveis impactos do câmbio, intensificando a trajetória dos preços relativos na economia.

Para compensar parte da inflação corretiva dos administrados, os preços de serviços, que chegaram a acelerar na variação em 12 meses até meados do ano passado, devem mostrar sinal gradual de desaceleração. O comportamento dos preços livres, por sua vez, deve ser mais favorável, ao refletir o ritmo mais fraco da demanda doméstica e as consequências do aumento da taxa de desemprego sobre os rendimentos salariais. A expectativa de redução mais forte da atividade econômica contempla uma descompressão da inflação corretiva ao longo do 2º semestre de 2015.

Em um ambiente em que a inflação está no teto da meta estipulada pela autoridade monetária, também não sobra espaço para a redução da taxa de juros Selic. Há aproximadamente dois anos, foi iniciado um aperto monetário, que foi retomado no segundo semestre de 2014, mas que ainda não atingiu seu principal objetivo, de diminuição nos níveis de preços. A perspectiva de ajuste nos administrados continuará demandando uma politica monetária restritiva.

A evolução do câmbio também influenciará o curso da evolução do nível de preços. O câmbio está pressionado por fatores internos e externos. Externamente, a desvalorização dos preços das commodities impacta o real e moedas de outras regiões exportadoras desses insumos. O dólar também tem se fortalecido, devido à evolução positiva dos indicadores norte-americanos. Internamente, a piora nas contas externas também deve influenciar a moeda nacional. Resta lembrar que a inflação está no limite do amplo intervalo de tolerância em torno da meta, logo, qualquer desvalorização cambial mais acentuada irá demandar uma política monetária mais restritiva ou um ajuste fiscal mais forte.

Houve uma sinalização positiva da nova equipe de gestores da política econômica em favor de conduzir as contas públicas a uma trajetória sustentável e de realinhamento dos preços. No entanto, esses ajustes deverão limitar a capacidade de crescimento da economia, e os desafios são muitos. As taxas de juros do mercado futuro já precificam um aperto monetário que pode levar a Selic a 13% ao ano já em 2015. Ao que parece, o processo de redirecionamento das políticas públicas, mesmo que feito com parcimônia, terá um custo elevado, contudo, necessário para voltar ao crescimento sustentável em 2016.

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