Por diana.dantas

A decisão do Banco Central Europeu (BCE) de aprofundar o estímulo monetário por meio da introdução de um programa de alívio quantitativo no momento em que a autoridade monetária dos Estados Unidos prepara-se para iniciar o processo de normalização da taxa de juros básica traz consequências importantes para a economia brasileira, particularmente no que se refere à política monetária. De um lado, temos grande expansão monetária, proveniente, principalmente, da zona do euro e do Japão; de outro lado, há ajustes vindos dos Estados Unidos e, de certa forma, também da China, por meio de sua política cambial. Esse descompasso deve gerar uma postura mais cautelosa dos bancos centrais pelo mundo e dar mais margem de manobra ao Banco Central do Brasil.

O descompasso entre as políticas monetárias globais foi exacerbado pelo BCE, que implanta tardiamente um programa de compras de ativos, acompanhando o Banco do Japão, ao prover liquidez extra para os mercados, enquanto o Federal Reserve, tendo já finalizado seu programa de compras, deve elevar a Fed Funds — atualmente próxima de zero (entre 0% e 0,25%) — ainda este ano. Além de atuar sobre os preços dos ativos, o programa de compras visa também desvalorizar o euro ante seus parceiros comerciais para ganhar mais competitividade. Seis anos após a crise financeira, o crescimento econômico dos países da zona do euro ainda deixa a desejar, ficando abaixo da média da tímida retomada dos demais países desenvolvidos.

Em meio aos esforços do BCE de desvalorizar o euro, a maior parte dos bancos centrais assume uma postura defensiva, com exceção do Banco Nacional da Suíça, que, temendo a desvalorização de seus ativos e os efeitos inflacionários, tomou a decisão inusitada de abandonar a âncora cambial ao euro antes do início do QE europeu, colocando o país em perspectiva de recessão. Os bancos centrais da Dinamarca e do Canadá devem cortar suas taxas de juros, enquanto o Banco da Inglaterra deve adiar a subida de sua taxa de juros básica.

Em meio a esse novo ciclo de afrouxamento monetário, é mantida a perspectiva nos Estados Unidos de elevação da taxa dos Fed Funds. A redução do desemprego para patamares próximos da média histórica e da capacidade ociosa para níveis mais próximos do produto potencial formam as condições necessárias para que o Federal Reserve dê continuidade ao processo de normalização de sua política monetária, ainda que prevaleçam incertezas em relação ao seu patamar de neutralidade, ou seja, da taxa desejada no longo prazo. Essa incerteza, somada ao cenário global volátil, relaciona-se com o termo “paciência” utilizado no último comunicado do FOMC. A normalização deverá ser gradativa, e não abrupta, e requererá uma comunicação efetiva para que seja feita sem solavancos, mantendo os prêmios de risco sobre a estrutura a termo das taxas de juros em níveis baixos.

Contando com uma comunicação efetiva da parte do Federal Reserve, a liquidez extra proveniente de parte significativa dos bancos centrais deve ajudar a manter as taxas de juros de longo prazo comprimidas. Essa é a boa notícia para o Banco Central do Brasil. A paciência do Federal Reserve deverá ajudar na parcimônia da política monetária interna. Após ensaiar um aumento em meados de 2013, com as incertezas iniciais relacionadas ao fim do programa de compras, a taxa de juros de longo prazo, medida pelo retorno sobre os títulos de dez anos do Tesouro Norte-americano, recuou ao longo de 2014, e no início deste ano situa-se próxima das mínimas históricas.

A implicação para o Brasil é a continuidade das condições favoráveis de financiamento externo, caso a gestão da política econômica seja eficaz em manter as expectativas e, consequentemente, os prêmios de risco sob controle. Para a política monetária, o cenário para reconduzir a inflação a uma trajetória de convergência para o centro da meta é desafiador. Os ajustes da política fiscal, além de seus efeitos contracionistas sobre a atividade econômica, também levarão a uma inflação corretiva no curto prazo. Além da alta esperada dos preços administrados, a seca, o racionamento e o dólar também contribuirão de maneira negativa para a inflação. Para a evolução da atividade econômica também pesam negativamente a crise da Petrobras, que tem uma grande importância, sobretudo para os investimentos e a possibilidade de racionamento de água e energia.

Apesar da inflação mais alta no curto prazo e da atividade fraca, tudo indica que o ajuste da política monetária será prolongado. As taxas de juros deverão subir de maneira mais lenta, já que se espera uma retração do PIB este ano. Cabe ao Banco Central conduzir as expectativas inflacionárias ao longo do ciclo por meio de uma comunicação mais eficaz. A última ata do Copom já apresentou uma melhora, ao sinalizar um cenário mais realista para os preços administrados e para a política fiscal. Isso só foi possível com a coordenação entre a política monetária e a política fiscal atual.

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