Câmbio, inflação e atividade

Enquanto a variação anual nominal da taxa de câmbio foi de 18,2% em fevereiro de 2015, a variação real foi de apenas 9,4%. Preços internos mais caros reduzem o efeito da alta do dólar

Por O Dia

O real já acumula perda de cerca de 20% neste ano com o fortalecimento do dólar e foi uma das moedas que mais se desvalorizaram no acumulado de 2015. Entretanto, a trajetória de desvalorização do real não é recente. Apesar de sua magnitude e volatilidade remeterem a momentos de crise, a tendência de alta do dólar não surpreende. O que mudou foi a estratégia do Banco Central em relação ao câmbio. Desequilíbrios internos acentuam a tendência mundial de alta do dólar, e, além da intensa depreciação, o real apresenta forte volatilidade. Na semana passada a taxa de câmbio alcançou 3,30 R$/US$, superando o teto alcançado durante a crise de 2008 e atingindo o maior patamar desde março de 2003. No entanto, ao contrário do que ocorreu nos últimos períodos de acentuada desvalorização, desta vez o Banco Central está reduzindo suas intervenções no mercado de câmbio.

Em meados de 2013, quando a tendência de alta do câmbio passou a ser mais acentuada, o Banco Central reintroduziu o programa de swaps cambiais para atender à demanda por hedge cambial e, consequentemente, reduzir a volatilidade e amenizar a desvalorização. O volume total dos swaps alcança hoje R$ 317 bilhões, o que representa cerca de 15% da dívida em mercado. No entanto, mesmo com a acentuada desvalorização da moeda a partir de fevereiro, o Banco Central havia aumentado os resgates de swaps, mantendo o mesmo ritmo de colocações, resultando em expansão mais modesta. Em janeiro de 2015 os resgastes alcançaram 85% das colocações. Com o anúncio do fim das colocações semanais e a rolagem integral dos swaps, o Banco Central reconhece os limites dessas intervenções.

As colocações expressivas de títulos indexados ao câmbio foram bem-sucedidas na suavização da alta do dólar. No entanto, essas intervenções não mudam sua tendência no médio e no longo prazo. O fortalecimento do dólar é uma tendência global que tem origem no próprio fortalecimento da economia norte-americana. Na medida em que os Estados Unidos se preparam para concluir o processo de normalização de sua política monetária, ao mesmo tempo que Europa e Japão continuam conduzindo expansões monetárias maciças, há um aprofundamento do processo de valorização do dólar.

Fatores internos fazem com que esse processo seja mais expressivo e turbulento para a economia brasileira. O déficit em conta-corrente do país com o exterior aumentou significativamente nos últimos anos. Adicionalmente, a capacidade de financiar esse déficit diminuiu com a redução das perspectivas de crescimento da economia brasileira e com a mudança recente nos termos de troca mundiais, por meio da queda generalizada dos preços das commodities. A volatilidade, apesar de inevitável, é especialmente prejudicial, por reduzir a previsibilidade dos agentes no processo de tomada de decisões.

No momento atual, de aceleração inflacionária, a alta do dólar é uma preocupação a mais. Por outro lado, o câmbio é uma variável de ajuste, e sua desvalorização faz parte de um processo de correção de desequilíbrios, especialmente o do Balanço de Pagamentos. Com o dólar em alta, as importações tornam-se mais caras, e as exportações, mais competitivas. A indústria e a agropecuária são setores que se beneficiam bastante desse ajuste, por produzir bens transacionáveis com o exterior, mas a queda da relação salário/dólar favorece a competitividade da economia brasileira em geral.

Contudo, a taxa de câmbio relevante para esse ajuste é a real efetiva, que considera a inflação e uma cesta de moedas dos países com os quais o Brasil transaciona. Em termos efetivos reais, a desvalorização do câmbio tem sido mais modesta. Na verdade, até janeiro de 2015 a taxa de câmbio efetiva real apresentava apreciação na comparação anual. A desvalorização adicional ocorrida a partir de fevereiro deve dar início a ajustes efetivos reais.

A diferença entre a trajetória dos preços externos e internos tem feito com que o câmbio real apresente variação menor que o nominal. No gráfico podemos observar o câmbio unilateral entre o real e o dólar. Enquanto a variação anual nominal da taxa de câmbio foi de 18,2% em fevereiro de 2015, a variação real foi de apenas 9,4%. Isso ocorre pelo efeito da inflação. Nos Estados Unidos, a queda do preço do petróleo resultou em inflação zero no período, enquanto no Brasil a inflação foi de 7,4%. Preços internos mais caros reduzem o efeito da alta do dólar na competitividade dos produtos brasileiros.

Ao analisarmos a taxa de câmbio multilateral, que considera não apenas o dólar, mas uma cesta ampla de moedas, a variação é ainda menor. A tendência de alta do dólar não ocorre exclusivamente em relação ao real, pois se trata de um movimento global. Outras moedas também se desvalorizaram em relação ao dólar, reduzindo os ganhos de competitividade da moeda brasileira. Dessa forma, até o momento, a trajetória do dólar não havia apresentado impactos significativos sobre os preços relativos e, portanto, sobre a exportação. A atividade interna fraca também reduz o repasse da alta dos preços cotados em dólar para o consumidor, enquanto a inflação dos não comercializáveis continua em patamares elevados.

O ajuste mais modesto do câmbio em termos reais e efetivos é agravado por uma mudança dos termos de troca mundiais. No passado, a sobrevalorização do dólar foi compensada por um concomitante ciclo de alta das commodities e acabou favorecendo as exportações brasileiras. Com as commodities em queda e a inflação próxima de zero nos Estados Unidos e na Europa, o Brasil será menos favorecido, e o ajuste externo fica mais lento, apesar dos acertos da atual política econômica.

Últimas de _legado_Notícia