Expectativas em queda. Até quando?

A inflação em alta afeta as expectativas de renda. Os efeitos sobre a atividade e a demanda são definitivamente recessivos, mas seriam suficientes para moderar o nível de preços?

Por O Dia

A divulgação dos resultados do PIB de 2014, feita na semana passada pelo IBGE, trouxe mais uma confirmação do desaquecimento do cenário econômico vigente. O resultado foi o pior desde a queda de 0,2% apurada em 2009, período em que a crise econômica global estava no auge. Os investimentos em capital físico, a indústria e a agropecuária foram os destaques negativos. Os investimentos fecharam o ano com recuo de 4,4% — a maior queda desde 1999, quando houve recuo de 8,9% —, e a indústria, com queda de 1,2% — menor valor desde 2009. A agricultura também teve elevação de 0,4% — desempenho bem inferior ao de 2013, quando houve um avanço de 7,9%.

Embora ainda no campo positivo, o PIB dos serviços teve o pior crescimento desde 1996 (0,7%). O mesmo serve para o consumo das famílias, com elevação de 0,9% — a menor desde 2003 e menos da metade do avanço registrado em 2013 (2,9%). A análise desses dados corrobora a confirmação do esgotamento do ciclo de consumo, propulsor do crescimento da economia brasileira nos últimos anos. Juros elevados, menor crescimento da renda, menor expansão do crédito e inflação pressionada são fatores que reduziram a intenção de consumo das famílias, bem como a disposição para investimento das empresas.

Essa piora no ambiente econômico provocou novas quedas nos indicadores de confiança em fevereiro e março. A pesquisa de Intenção de Consumo das Famílias (ICF), realizada pela CNC, refletiu em março o cenário de desaquecimento do consumo que pôde ser observado desde o ano passado. A pesquisa é um indicador antecedente que objetiva estimar o potencial das vendas do comércio. O índice geral está no menor valor da série histórica, com 110,6 pontos, e registra queda anual de 11,9%. O resultado reflete o ano anterior inteiro de desaceleração no comércio. Dados de outras instituições reforçam o cenário de pessimismo que atinge os agentes. O Índice de Confiança do Consumidor (ICC), apurado pela FGV, atingiu o mínimo histórico pelo terceiro mês consecutivo. O mesmo ocorreu com o Índice de Confiança do Comércio (Icom) e com o Índice de Confiança da Construção (ICST). O Icom registrou a quinta queda consecutiva e também está no menor patamar da série. O ICST atingiu o maior recuo mensal da série histórica iniciada em julho de 2010. Com o resultado, o índice está em um novo piso.

O consumo está sendo enfraquecido principalmente por dois fatores: o nível de preços mais alto e juros elevados. A taxa de juros para o consumidor, representada pela taxa média de juros das operações de crédito com recursos livres para pessoas físicas e divulgada pelo Banco Central (a metodologia da série foi modificada em fevereiro deste ano), está no maior patamar da série. A taxa estava em 52,62% ao ano na divulgação referente a janeiro — a mais recente. A inflação oficial voltou a aumentar, principalmente nos grupos de transportes.

O mesmo ocorre com as expectativas inflacionárias, que estão sendo renovadas para cima a cada nova divulgação de boletim Focus, do Banco Central. Segundo o último boletim, que é divulgado toda segunda-feira, a Selic deve fechar o ano em 13,25%, e não mais em 13%; o PIB terá queda de 1% — antes era de 0,78%; a inflação deve atingir 8,13%, impactada pelos reajustes nos administrados; para o câmbio, a estimativa é que encerre o ano em R$ 3,20 — a previsão anterior era de R$ 3,15.
Nesse contexto, os antes frequentes comunicados de que no próximo ano a inflação atingiria a meta de 4,5% estão aos poucos saindo de cena. Adicionalmente, a desvalorização do real é mais um componente que deve impactar produtores e, consequentemente, a inflação. Os consumidores têm reagido com cautela em relação a esse cenário. Afinal, a inflação em alta afeta as expectativas de renda. Os efeitos sobre a atividade e a demanda são definitivamente recessivos, mas seriam suficientes para moderar o nível de preços?

A possibilidade de rebaixamento no rating brasileiro e as repercussões das questões políticas em curso também são fatores relevantes para o resultado da atividade este ano. Portanto, é esperado que o PIB termine o ano em queda, após a estagnação de 2014. Em linha com esse ambiente de negócios, a confiança segue em queda, puxada também por um mercado de trabalho desaquecido e pela menor expansão no crédito. Embora a massa salarial tenha aumentado 4,1% em 2014, não houve ampliação real do crédito ao consumidor.

Empiricamente, o curso do cenário é conduzido pelas expectativas dos agentes. O ano passado foi bastante frustrante sob o aspecto de projeções econômicas, que eram constantemente revisadas para baixo pelo mercado e até mesmo pelas autoridades, devido ao grau de incertezas. É possível que, de acordo com as políticas e a conduta que estão sendo adotadas pela nova equipe econômica, se forme um contexto de renovação que conduzirá a uma gradativa reversão nas expetativas e a um novo fôlego para 2016. Os facilitadores desse cenário serão a recuperação da confiança e da previsibilidade para os participantes do cenário. No entanto, para que essas expectativas sejam modificadas, é interessante atentar para o cumprimento de algumas pré-condições, como o término do reajuste da inflação corretiva, a aprovação do pacote fiscal, o início de um ciclo de queda de taxa de juros e a diminuição do estoque de swaps, instrumentos esses que já tiveram a renovação adiada.
É importante também ressaltar alguns riscos que poderão interferir nessas questões. A possibilidade de subida nos juros norte-americanos é cada vez mais próxima, e turbulências poderão acontecer nos mercados globais, a depender da conduta do Fed. O rebaixamento do rating brasileiro também afetaria a imagem nacional no exterior, o que poderia ocasionar uma mudança no afluxo de capitais para o país.

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