Por diana.dantas

Antes grande promessa dos Brics, o crescimento do Brasil caiu pela metade desde os anos favoráveis entre 2004 e 2008, em que o PIB cresceu próximo de 5% ao ano em média. As expectativas para este ano não são animadoras e preveem agravamento da fraqueza da atividade apurada em 2014. 

As razões para esse declínio são conhecidas: economia ainda consideravelmente fechada, baixa produtividade, alto nível de burocratização e capital físico muito aquém do necessário.

O resultado do IPCA de março, por exemplo, é o maior desde fevereiro de 2003. No acumulado em 12 meses, um novo teto. A taxa acumulada em 8,13% até março deste ano é a maior desde dezembro de 2003. Um alívio é que a inflação de serviços, que vinha superando o total do IPCA há alguns meses, mostra desaceleração pelo terceiro mês consecutivo. As principais pressões seguem no grupo de alimentos, tarifas administradas; e adicionalmente há aquelas advindas do câmbio, que segue desvalorizado em relação ao real.

Diante desse quadro inflacionário, de endividamento considerável e juros e dólar em alta, a caderneta de poupança teve, em março deste ano, o pior desempenho da série histórica. Em março, os saques foram maiores que os depósitos no montante de R$ 11,438 bilhões. Até então, o maior resgate líquido tinha acontecido em fevereiro deste ano, de R$ 6,236 bilhões. Parte das saídas é explicada pelo nível de preços elevado. No primeiro trimestre a poupança rendeu 1,6%, enquanto a inflação medida pelo IPCA-15 foi de 3,5% — ou seja, nesse período a aplicação rendeu prejuízo aos seus usuários.

O ritmo desaquecido do mercado de trabalho também corrobora com a menor disposição das famílias para consumir. A taxa de desemprego medida pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad) ficou em 7,4% no primeiro trimestre deste ano — acima dos 6,8% do mesmo período do ano passado. E embora tenha sido apurado aumento de 1% na renda real nesse período, a tendência é que haja queda nessa remuneração, em razão da diminuição do poder de compra. A perspectiva para o emprego este ano é que a geração de vagas continue em desaceleração.

A implicação dessa deficiência de recursos para gastos discricionários é o agravamento de um ciclo e da situação atual de estagflação, ou seja, de baixo crescimento combinado com inflação elevada. Com vendas em queda, o comércio passa a comprar menos da indústria.

A pesquisa de Intenção de Consumo das Famílias (ICF), realizada pela CNC, é um indicador antecedente que apresenta um panorama conciso da situação econômica das famílias. O índice geral está no menor valor da série histórica, com 110,6 pontos, e registra queda anual de 11%. O resultado reflete o ano anterior inteiro de desaceleração no comércio. No indicador há abertura por faixas de renda e no índice geral não há basicamente diferença entre elas. O indicador referente às famílias com renda abaixo de dez salários mínimos está em 110,6 pontos, e o das famílias com renda acima desse patamar está em 110,5 pontos.

No entanto, quando analisamos por componente em cinco dos sete componentes da pesquisa, as famílias com renda mais alta mostram um indicador mais positivo — entre eles, os componentes Renda atual, Acesso ao crédito e Consumo atual. Com essa observação, é possível afirmar que o consumo das famílias é afetado de maneira distinta, assim como os investimentos.

Neste ano, até o dia 10 de abril a valorização do dólar ante o real é de 14%. Quem aplicou em ativos financeiros atrelados à variação do indicador ou mesmo dos juros brasileiros está em vantagem. Portanto, o consumo das camadas mais favorecidas, que costumam ter acesso mais facilitado a diferentes produtos financeiros, continua aquecido.

Nesse sentido, há alguns indicadores que mostram que o motor do crescimento do varejo está mudando. Um estudo elaborado pela consultoria Nielsen mostra que os consumidores com maior renda são responsáveis por 60% do crescimento das vendas nos supermercados. A participação da classe C nesse quesito é de 33%. A classe C ainda é extremamente relevante, mas houve uma mudança em seu papel no crescimento. Um dos motivos que explicam essa diferença é que, por exemplo, a inflação e a alta dos juros afetam de forma diferente as classes econômicas. Para os consumidores das classes A e B, por exemplo, a inflação de serviços é a que mais influencia o orçamento.

Outra questão para a desaceleração do crescimento da classe C é a redução do crédito, que afeta preferencialmente dois setores: o automotivo e o imobiliário. As vendas de autos e leves acumulam queda de 17% neste ano até março, em relação a igual período de 2014, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). No entanto, a venda de veículos de luxo ou “premium” está em ascensão. A montadora alemã Audi, por exemplo, teve recorde de vendas em 2014, com volume de negócios 86% maior que o registrado em 2013. O resultado é superior ao alcançado em 2001, até então o melhor ano da montadora alemã no país. No primeiro trimestre deste ano a montadora mostra crescimento acumulado de 22%. Um cenário semelhante ocorre na Mercedes-Benz.

Apesar dos entraves de política econômica e do desaquecimento dos últimos tempos, o país tem o sexto maior PIB do mundo e uma população de cerca de 200 milhões de consumidores, metade dos quais podem ser categorizados de forma segura como classe média. Em geral, os consumidores brasileiros continuam carentes em muitas categorias de varejo, o que apresenta muitas oportunidades para varejistas capazes de entender onde e como colocar suas apostas. Um exemplo é a o comércio eletrônico, que, ainda que represente pequena parte do varejo, registra crescimento vertiginoso entre 15% e 20%, segundo todas as consultorias especializadas no setor.

Em face dessas constatações, o Brasil ainda possui grande e atraente potencial de consumo, ainda que ele esteja distribuído de maneira desigual entre as diferentes classes econômicas.

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