Intenção de consumo no país está em processo de queda livre

Um dos maiores fantasmas que segue prejudicando o orçamento das famílias é a inflação, que segue elevada e não mostra sinais de reversão próxima

Por O Dia

Nos últimos anos, vivenciamos um ambiente de política anticíclica, que foi mais longo do que deveria. O governo não foi produtivo na adoção de determinadas políticas e hoje sofre as consequências de escolhas ineficientes. O estímulo artificial ao consumo, através da redução e isenção de tributos, a contenção dos preços administrados, as intervenções no mercado de câmbio para administrar o preço do dólar, são os principais fatores que resultaram no enfraquecimento do cenário atual. A fim de reverter tal situação, o governo está implementando ajustes fiscais e aos poucos liberando os preços para que se aproximem do seu real valor.

Atualmente, o país passa por uma crise de credibilidade. Há dificuldade por parte do governo em manter uma agenda positiva, pois o Congresso está resolvendo as consequências dessas escolhas difusas. Essas decorrências incluem a crise na Petrobras, as questões políticas, os preços administrados, o câmbio e o mercado de trabalho, que vem mostrando menor geração de vagas desde o início do ano.

Essa situação de estagnação da atividade com inflação em alta — ou seja, uma estagflação — está avançando, e traz com ela uma continuidade no pessimismo dos agentes, sem diferenciação de renda. A pesquisa de Intenção de Consumo das Famílias (ICF) apurada pela CNC apurou queda de 6,9% de março para abril e despencou 17,8% na comparação anual. O indicador está em 102,9 pontos e os sete componentes nele inclusos estão nos menores valores da série histórica iniciada em janeiro de 2010. O índice geral está cada vez mais próximo da zona desfavorável, que ocorre quando o indicador está abaixo de 100 pontos.

Com menos flexibilidade no orçamento, as famílias com menor renda são as mais influenciadas pelas adversidades da situação econômica atual. No índice geral, as duas classes da pesquisa (famílias com renda acima de dez salários mínimos e abaixo de dez salários) mostraram valores semelhantes. Uma das consequências nesse freio no consumo é a diminuição na compra de itens de menor consumo diário e aqueles que dependem do crédito, como produtos da linha branca. No ICF, o quesito “momento para duráveis” é o que registrou as maiores quedas mensais e anuais dentre todos os outros componentes. No entanto, ao analisar os componentes separadamente, há alguma diferenciação em determinados quesitos da pesquisa, como “acesso ao crédito” e “momento para duráveis”, em que as famílias de renda mais elevada mostram menor pessimismo. Isso pode ser explicado pela composição das despesas familiares, que pode ser observada através da análise da Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) do IBGE. Os dados mostram que em torno de 68% da renda das famílias das classes E e D está comprometida com gastos mais básicos, como habitação e alimentação. Já na classe C, esse percentual é de 57%. As classes A e B têm maior folga no orçamento, já que esse percentual é de 48%.

Um dos maiores fantasmas que segue prejudicando o orçamento dessas famílias é a inflação, que segue elevada e não mostra sinais de reversão próxima. O IPCA-15, divulgado em 15 de abril, não trouxe ânimo para os agentes e para o futuro próximo. O indicador atingiu 1,07%, perto das expectativas mais altas dos analistas, que estavam em 1,10%. Os preços de energia elétrica foram responsáveis por 45% da alta do indicador, e dos alimentos por 24%. Nesse sentido, a questão do baixo ritmo da atividade tende a se agravar. Essa depende da reconstrução na capacidade de consumir das famílias, cujos rendimentos são comprometidos pela alta dos preços e dos juros. A resistência da inflação também leva a crer que a taxa básica de juros ainda não está próxima de um ciclo de baixa.

Outro reflexo do desaquecimento da demanda pôde ser visto na última divulgação da Pesquisa Mensal de Serviços do IBGE. A queda na receita bruta nominal de serviços de 1,8% em janeiro para 0,8% em fevereiro foi influenciada pela piora em quase todos os segmentos integrantes do setor. A queda é compatível com a menor geração de vagas no mercado de trabalho e com o cenário de perda de confiança. Adicionalmente, o dado é mais um dos que reforça a percepção de um PIB negativo no primeiro trimestre deste ano. A atividade industrial em queda, que tem demandado cada vez menos serviços, também é responsável por esse panorama.

O dado de emprego industrial, divulgado nesse mês pelo IBGE, mostrou recuo de 4,5% em fevereiro deste ano ante fevereiro de 2014, ao menor nível de toda a série histórica, iniciada em dezembro de 2000. Já são 41 quedas mensais consecutivas observadas ante iguais meses dos anos anteriores. Além de ser o menor valor, o emprego industrial encontra-se 9,5% abaixo do pico histórico, em julho de 2008. As dificuldades da indústria se mostram mais complicadas do que em momentos anteriores, devido à longa extensão do processo de deterioração da confiança de empresários e consumidores.

As dificuldades conjunturais, como fraqueza da atividade, inflação elevada, falta de competitividade e renovação na indústria e juros altos são os motivadores da perda de confiabilidade. A perspectiva ainda é de agravamento de alguns desses fatores, principalmente da inflação, por conta dos preços administrados, que ainda permanecerão em ajuste.

Contudo, até o final do ano, o balanço de riscos é melhor para o nível de preços. O andamento do plano de ajustes proposto pelo governo é fundamental para pavimentar a retomada da confiança não só interna, como também dos investidores externos, que poderão trazer consigo uma perspectiva mais animadora.

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