Trégua no dólar

Devido ao nível baixo das taxas dos tradicionais polos de investimento e à postergação da subida dos juros nos EUA, há ainda espaço para o real ganhar valor no curto prazo

Por O Dia

A evolução nos ajustes fiscais e a queda nos preços de algumas commodities como o petróleo e o minério de ferro foram parte do entorno que acompanhou a desvalorização do real, que registrou queda de 5,6% em abril. Nos últimos dois anos, a queda mais pronunciada das commodities foi um dos fatores que contribuíram para o fortalecimento do dólar ante moedas de países exportadores. Uma retomada dos preços do petróleo pode promover valorizações das moedas commodities, que seriam adicionalmente favorecidas pelo maior fluxo de capitais para ativos financeiros nesses países. No primeiro trimestre, o real acumulou queda de 17% em termos nominais. A resiliência recente da moeda deve ajudar a suavizar algumas das preocupações sobre a posição financeira da Petrobras, bem como auxiliar no nível geral de preços.

Os dados mais recentes da economia norte-americana — que têm se mostrado enfraquecidos — e a falta de definição do Fed na última reunião são fatores que reforçam a perspectiva de adiamento na elevação dos juros do país. Mesmo assim, há uma tendência de valorização da moeda norte-americana. Os EUA já mostram um crescimento relativamente sustentável, e a compra de ativos no país já cessou, diferentemente da Europa e do Japão. Portanto, ainda que baixas, as taxas de juros norte-americanas são mais atrativas que as desses países, o que fortalece o dólar.

Devido ao nível baixo das taxas desses tradicionais polos de investimento e à postergação da subida dos juros nos EUA, há ainda espaço para o real ganhar valor no curto prazo. Isso ocorre em razão dos movimentos dos fluxos externos de capital para arbitragem com a taxa de juros elevada do país, as chamadas operações de carry trade. Um ponto a se considerar é que o olhar dos investidores externos não avalia somente o diferencial de juros de um determinado país em relação ao restante do mundo, mas o excesso desse diferencial sobre o risco Brasil — risco esse que tem passado por diversas oscilações, em razão das complicações políticas e da situação da Petrobras. A origem do financiamento do déficit em transações correntes é um dos fundamentos da exposição externa do país. Quando a cobertura desse financiamento é dependente dos capitais externos, como é o caso do Brasil, a incerteza paira sobre essa situação. Assim, dados os próximos acontecimentos internos e externos, os fluxos de capitais de curto prazo podem sofrer oscilações abruptas. Por isso, apesar da situação confortável das reservas, há alguma vulnerabilidade externa.

Em relação ao real, seu fortalecimento tem também os seus custos, já que vai contra a necessidade de ajustar a conta corrente para o seu nível sustentável. O déficit em conta corrente no mês de março foi de US$ 5,7 bilhões — resultado superior ao registrado no mesmo mês do ano passado (US$ 6,6 bilhões). No acumulado em 12 meses, o déficit recuou mais uma vez (de US$ 102,5 bilhões para US$ 101,6 bilhões) e continua estável em 4,5% do PIB. Quando comparado com outras economias, o déficit é considerado alto. Segundo dados do FMI, em uma lista de 14 países que já mudaram para a nova metodologia de apuração, apenas duas economias registraram déficits mais elevados: África do Sul (5,4% do PIB) e Colômbia (5% do PIB).

No Plano Real, a política macroeconômica foi estruturada com base em alguns objetivos básicos, que são: câmbio flutuante, metas de inflação e superávit primário. Com esses objetivos como norte, o país conseguiu transpor a hiperinflação e atingiu maiores níveis de crescimento e melhora na distribuição de renda. Nos anos posteriores, os preços valorizados das commodities permitiram que o país acumulasse significativas reservas internacionais, proporcionando algum grau de conforto às contas externas. No entanto, desde o ano de 2013 a política monetária tem sido mais restrita, a fim de controlar o nível de preços. Taxas de juros elevadas, junto com a política de swaps cambiais, que reduzem a volatilidade futura da taxa de câmbio, atraem investidores estrangeiros e controlam a pressão sobre a inflação. Mas há um preço a pagar para administrar o câmbio. Apesar de não ter impacto permanente sobre os gastos públicos e preservar temporariamente as reservas cambiais, a emissão de swaps aumenta a parcela da dívida interna indexada à moeda estrangeira, influenciando o endividamento público. Em março de 2015 a participação do dólar na dívida pública interna registrou o maior percentual desde maio de 2004 (16,12%), ou seja, a política trás um custo crescente para o governo.

Atualmente, as alternativas das quais o governo pode usufruir são: continuar com a sinalização do compromisso com os ajustes fiscais e permitir que o câmbio oscile de forma mais livre. Em contrapartida, é necessário aceitar que a inflação deve aumentar e a atividade vai continuar enfraquecida no curto prazo. A amplitude da desvalorização que o câmbio deve atingir dependerá do quanto se consegue financiar o déficit em conta corrente, algo que retoma a discussão da dependência dos incertos fluxos advindos dos investidores externos. O recado dado pelo Banco Central esta semana, de que fará menos intervenções no câmbio, reconfigura o movimento recente de valorização e pode significar impacto maior sobre os juros, em detrimento da atividade. No entanto, essa posição da autoridade monetária não é impeditiva e pode até ajudar num menor patamar de juros no médio e no longo prazo e num câmbio mais estável. Em resumo, no curto prazo há ainda uma tendência de valorização do real ante o dólar, mas que não deve durar muito tempo.

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