O endividamento das famílias

O maior e mais significativo choque para a renda de uma família é o desemprego. E quanto maior o nível de desemprego de uma economia, maior será a taxa de inadimplência

Por O Dia

A última ata do Copom, ao enfatizar o objetivo do Banco Central de trazer a inflação de volta ao centro da meta no médio prazo, aumentou a expectativa de altas maiores da taxa básica Selic. A mudança na comunicação da instituição na busca pela retomada da credibilidade foi, em parte, bem-sucedida, de modo que exerceu impacto significativo sobre as taxas de juros futuras, potencializando os efeitos do aperto monetário. A mediana das expectativas para a inflação de 2016 da pesquisa Focus também mostrou um recuo, fato que não ocorria desde fevereiro.

Entretanto, as expectativas para a inflação ainda estão muito longe do centro da meta. Na pesquisa Focus, é esperado que a inflação alcance 8,3% neste ano e 5,6% no próximo. Muito embora essa expectativa represente um processo desinflacionário significativo, o custo desse processo será muito elevado e implica uma contração da atividade econômica. Com as perspectivas de recuperação cada vez mais longe e o balanço de riscos pendendo fortemente para uma recessão prolongada, ao mesmo tempo em que os choques inflacionários se dissipam no curto prazo, é possível que o Banco Central reveja essa estratégia.

A maior participação do crédito na economia brasileira sugere que hoje há uma maior potência da política monetária. O aperto monetário teria efeito maior que no passado, pois o canal de transmissão dos juros através do crédito é mais significativo. De fato, como podemos observar como efeito da moderação do crescimento do crédito, um recuo da demanda, sobretudo das famílias, aponta para resultados nesse sentido. As taxas de juros para as novas operações de crédito alcançam os maiores patamares desde 2011 e o saldo de operações do crédito às pessoas físicas, excluindo o crédito direcionado, apresenta queda de -3,6% em termos reais. As operações com recursos direcionadas ainda exibem crescimento substancial, de 20%, já descontada a inflação.

No entanto, apesar do arrefecimento do crescimento do crédito, o endividamento das famílias ainda permanece em patamares elevados. Além de ampliar os efeitos do aperto monetário sobre a economia, aumentos no endividamento preocupam, não apenas pelos riscos que representam à saúde financeira das famílias, mas também por seus efeitos sobre o sistema financeiro e o crescimento econômico em geral.

Após um longo ciclo de expansão do crédito, houve ampliação substancial do endividamento das famílias em relação à renda disponível. De acordo com estimativas do Banco Central, a dívida das famílias passou de 18,5% da renda acumulada em 12 meses, em 2005, para 46,5% no primeiro trimestre de 2015. Parte desse crescimento foi sustentada pelo processo de redução das taxas de juros e alongamento de prazos. O menor custo do crédito e o maior prazo de pagamento possibilitaram que o aumento do endividamento fosse acomodado na renda das famílias, sem que houvesse um aumento no comprometimento dos salários na mesma proporção. O Banco Central estima que o serviço mensal da dívida das famílias tenha alcançado, no primeiro trimestre do ano, 22,4% da renda total das famílias, ante 15,9% em 2005.

Enquanto a oferta acessível de crédito possibilita a melhor distribuição das famílias de seu consumo ao longo do tempo, o aumento de seu endividamento as torna mais expostas a choques externos e amplia os efeitos desses choques sobre a economia. A reversão da política monetária iniciada em 2013 e retomada no início deste ano trazem consequências econômicas importantes, quando as famílias já têm um endividamento elevado e comprometem parcela significativa de suas rendas com o pagamento de dívidas. Apesar da desaceleração do crescimento do crédito, o comprometimento da renda das famílias com dívidas estabilizou-se em patamares históricos elevados.

O maior e mais significativo choque para a renda de uma família é o desemprego. E quanto maior o nível de desemprego de uma economia, maior será a taxa de inadimplência. Taxas de juros mais altas levam à redução da propensão dos agentes econômicos ao consumo e ao investimento e, consequentemente, afetam os níveis de emprego e a renda do trabalho.

Questões estruturais do mercado de trabalho e desequilíbrios macroeconômicos vinham mantendo a taxa de desemprego em patamares baixos e permitindo ganhos reais de renda, mesmo na ausência de crescimento do PIB. Neste início desse ano, já se pode perceber uma deterioração das condições do mercado de trabalho.

Níveis maiores de comprometimento de renda não causaram impactos negativos expressivos no consumo, mas esses podem aprofundar os efeitos dos recuos na renda sobre o consumo. O crescimento nominal da renda mais modesto, somado às fortes pressões inflacionárias do primeiro trimestre, levou a um recuo na renda real do trabalhador. Assim sendo, o orçamento mais apertado das famílias com prestações e empréstimos reduz o espaço para acomodar o aumento de gastos e a perda do poder de compra do salário.

Enquanto o desemprego tem afetado apenas uma parcela da população, a alta dos juros afeta as condições gerais de financiamento. Portanto, o efeito do aperto monetário sobre as taxas de juros do crédito também forma um choque importante na renda das famílias. Quanto maior a exposição de uma família ao crédito rotativo e ao crédito de curto prazo, maior será esse impacto. A melhora do perfil de endividamento das famílias ocorrida recentemente, com a maior participação dos créditos consignados e imobiliários, amenizou o impacto negativo da alta dos juros sobre o comprometimento de sua renda com dívidas.

O atual patamar de endividamento das famílias, por si só, ainda não apresenta grandes riscos, pois seu aumento foi acompanhado por uma melhora no perfil das dívidas. Entretanto, sua combinação com redução da renda real, aumento da taxa de desemprego e elevações nas taxas de juros deve ampliar os efeitos do aperto monetário sobre a economia.

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